Análise: Jorge Sampaoli e Fernando Diniz mantém viva a esperança do futebol brasileiro
Foto: montagem / VAVEL

Mesmo com a paralisação do Campeonato Brasileiro, o debate sobre a atuação das equipes segue em pauta. O assunto ganhou evidência em diversos programas futebolísticos por causa do desempenho do Santos, comandado por Jorge Sampaoli, e com o estilo de jogo encantador do Fluminense, implantado por Fernando Diniz.

Sampaoli foi anunciado pelo Santos no fim do ano passado. Até o momento, são 35 partidas no comando do Peixe, com 19 vitórias, oito empates e oito derrotas. O retrospecto positivo deixa o treinador com 61,9% de aproveitamento à frente do time paulista.

Apesar dos números favorecerem o técnico argentino, o Santos acumula resultados inesperados neste ano. Além das eliminações na Sul-Americana e na Copa do Brasil, a equipe Alvinegra foi goleada pelo Ituano, em partida válida pelo Campeonato Paulista, e pelo Palmeiras, no Brasileirão.

Já Fernando Diniz, por sua vez, acertou sua ida para o Fluminense após o término da última temporada. O treinador foi escolhido para tentar extrair resultados de um elenco limitado, com o clube atravessando uma intensa crise política e financeira nos bastidores.

Foto: Lucas Merçon/Fluminense
Foto: Lucas Merçon/Fluminense

Neste ano, o Fluminense também disputou 35 partidas, e obteve 15 vitórias, 10 empates e 10 derrotas. No total, Fernando Diniz detém 52,3% de aproveitamento no comando do Tricolor Carioca, administrando uma equipe acostumada com salários atrasados.

Sampaoli e Fernando Diniz não compartilham a mesma característica de jogo. O argentino propõe um futebol ofensivo e tem a forte marcação adiantada como sua principal virtude. Enquanto isso, o treinador brasileiro prioriza a posse de bola, visando criar jogadas com mais efetividade.

Em comum, os dois acumulam questionamentos aos trabalhos e elogios por alguns resultados. O fato é Santos e Fluminense, mesmo sem grandes jogadores à disposição, conseguem demonstrar um bom desempenho até quando saem de campo sem vitórias, o que divide opiniões de torcedores e comentaristas.

Choques de realidade

Desde o início da década, o futebol brasileiro vive diante de uma enorme disparidade em relação ao padrão de jogo praticado na Europa. O reflexo disso veio à tona em duas oportunidades, sendo a primeira envolvendo um clube e a última a Seleção Brasileira, em meio a uma Copa do Mundo realizada no país.

Em 2011, com Muricy Ramalho no comando, o Santos conquistou a Taça Libertadores da América ao derrotar o Peñarol na decisão. No mês de dezembro, o Peixe embarcou rumo ao Japão para disputar o Mundial Interclubes na expectativa de enfrentar o Barcelona, campeão da UEFA Champions League, na final.

Antes da decisão, o time paulista passou pelo Kashiwa Reysol-JAP, vencendo por 3 a 1. Em seguida, veio o confronto tão esperado. Muricy Ramalho foi a campo no esquema 5-3-2, com o intuito de esperar o Barcelona e aproveitar os contra-ataques através dos espaços cedidos pelo time espanhol.

Foto: reprodução/quadro tático
Foto: reprodução/quadro tático

Entretanto, quando a bola rolou, torcedores e jornalistas assistiram a um massacre. Em meio a um Santos desorganizado e espalhado em campo, o Barcelona venceu por 4 a 0, conquistou o Mundial Interclubes e acendeu uma luz de alerta: o futebol brasileiro estaria atrasado em relação ao europeu?

A resposta mais adequada para o questionamento aconteceu dois anos e meio depois. Na semifinal da Copa do Mundo 2014, a Seleção Brasileira passou pelo maior vexame de sua história ao ser goleada pela Alemanha por 7 a 1. No comando daquela equipe estava Luiz Felipe Scolari, técnico responsável pela conquista do pentacampeonato mundial em 2002.

O Brasil vinha de péssimas atuações na competição, com direito a uma classificação dramática contra o Chile, nas oitavas de final, após vencer uma disputa de pênaltis. Mesmo assim, a torcida apostava no título e confiava no trabalho desenvolvido por Felipão. Na semifinal do torneio, ocorreu um novo massacre futebolístico.

Em campo, a Seleção Brasileira encontrou uma Alemanha compacta e objetiva. Sem organização tática, a equipe de Luiz Felipe Scolari terminou o primeiro tempo perdendo por 5 a 0. Na etapa final, Schürrle finalizou o show alemão e Oscar deu um conforto à torcida que lotou o Mineirão.

Reflexos dos massacres

Depois do vexame na Copa do Mundo, os técnicos brasileiros passaram a se interessar pelo futebol europeu. Alguns chegaram a realizar um intercâmbio no continente, com direito a visitas a Pep Guardiola, Carlo Ancelotti, Diego Simeone e José Mourinho, em busca de novas ideias de trabalho para por em prática nos clubes nacionais.

Outros treinadores reprovaram a ideia da expedição. No Brasil, até 2014, a maioria dos técnicos trabalhavam apenas com três esquemas táticos: 4-4-2; 4-3-3; e 3-5-2. Este último se tornou popular após ser adotado por Muricy Ramalho na conquista do tricampeonato brasileiro pelo São Paulo (2006, 2007 e 2008).

Foto: reprodução/quadro tático
Foto: reprodução/quadro tático

Quem não quis viajar para a Europa adotou dois novos esquemas táticos: 4-2-3-1 e 4-1-4-1. Além das formações, os treinadores passaram a formar linhas de marcação, visando melhorar a compactação das equipes durante as partidas.

Diante de um nulo repertório de ideias e sem novas propostas de comportamento em campo, a maioria dos técnicos brasileiros esbarraram na limitação e não conseguiram alterar a forma de atuação dos times do nosso país. Com isso, as equipes se acostumaram a depositar a esperança em atuações individuais para superar os adversários.

Renovação: a esperança de dias melhores

Quando os acompanhantes do futebol pediam novos nomes para compor o quadro de treinadores no mercado, Fernando Diniz chamou a atenção no comando do Grêmio Osasco Audax na campanha que terminou com o vice-campeonato Paulista em 2016.

A trajetória da desconhecida equipe teve como principal destaque as classificações em duelos contra São Paulo e Corinthians. Na final, o Audax perdeu o título para o Santos. Mesmo assim, o padrão de jogo demonstrado pelo time encheu os olhos dos torcedores, deixando uma grande e positiva marca naquela disputa.

Fernando Diniz no comando do Audax (Foto: Gabriela Montesano/Audax)
Fernando Diniz no comando do Audax (Foto: Gabriela Montesano/Audax)

Priorizando a posse de bola e trocando passes rápidos desde o campo de defesa, o Audax envolvia seus adversários e encontrava espaços para chegar ao ataque de forma efetiva. Com essa ideia, Fernando Diniz obteve destaque e foi bastante elogiado pela imprensa esportiva.

Além de Diniz, Maurício Barbieri, Alberto Valentim, Tiago Nunes, Rodrigo Santana e Rogério Ceni encabeçam a lista dos novos treinadores que se firmaram no cenário nacional. Outros nomes, tais como Milton Mendes e Eduardo Baptista, chegaram a ter um período de destaque, mas não conseguiram emplacar nos clubes que dirigiram.

Jogar bonito e perder ou vencer jogando mal

A discussão que aquece os principais debates sobre futebol começa a ter destaque após o início desta temporada. Jogando melhor que o Flamengo, o Fluminense não conseguiu avançar para a decisão do Campeonato Carioca. Enquanto isso, o Santos, após ter total domínio do confronto, foi eliminado pelo Corinthians nos pênaltis e não chegou à final do Paulistão.

A situação voltou a acontecer nas oitavas de finais da Copa do Brasil. O Fluminense, depois empatar e jogar melhor os dois jogos contra o Cruzeiro, foi eliminado na disputa de pênaltis. O Santos, por sua vez, deixou a competição após a derrota para o Atlético-MG, de virada, no Pacaembu.

Jorge Sampaoli e Fernando Diniz são queridos pelas torcidas de Santos e Fluminense, respectivamente. No entanto, a dúvida entre exibição ou resultado geram inúmeros questionamentos aos treinadores. Em contrapartida, o desempenho apresentado dentro de campo supera as expectativas sobre ambos os times, que não fizeram uma boa temporada em 2018.

Foto: Ivan Storti/Santos
Foto: Ivan Storti/Santos

Neste momento, o Santos é vice-líder do Campeonato Brasileiro e mantém uma situação estável, apesar do técnico argentino reprovar algumas atitudes da diretoria, como o contrato do volante Jean Lucas, que deixou o clube após ser vendido pelo Flamengo. Sampaoli acumula ações carinhosas perante os torcedores, tornando-se unanimidade na Vila Belmiro.

Vivendo com um ambiente interno conturbado, o Fluminense ocupa a 16ª colocação. Fernando Diniz administra o grupo para evitar o reflexo dos salários atrasados e da grave crise política que o clube carioca atravessa. Mesmo com todas as limitações do elenco, o trabalho do treinador é bastante elogiado, principalmente pelo padrão de jogo implantado na equipe.

Diante da aprovação dos torcedores, a exibição de Santos e Fluminense agregam ao espetáculo e trazem esperança por dias melhores no futebol brasileiro. Logo, Sampaoli e Diniz conduzem a expectativa daqueles que sonham em voltar a ver o Brasil como a principal vitrine do esporte, revelando craques, formando equipes competitivas e brigando por títulos internacionais.

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