Especial - Richard Sherman, o polêmico e talentoso líder da defesa dos Seahawks
De 154ª escolha no draft para o posto, discutível, de melhor cornerback da NFL: a trajetória de Sherman (Foto: Reprodução)

''Sou o melhor cornerback da liga", foram algumas das palavras proferidas por Richard Sherman logo após o triunfo sobre o San Francisco 49ers e a consequente vaga no Super Bowl XLVIII. Uma das principais peças da equipe do Seattle Seahawks, o atleta de apenas 25 anos - e que faz sua terceira temporada na NFL - já é considerado um dos melhores em sua posição. Como se não bastasse, também é reconhecido por sua personalidade forte e diversos casos controversos, como o uso de substâncias inapropriadas e inúmeras polêmicas com pessoas relacionadas ao esporte.

Destaque na high school e ida à Stanford

Como temos conhecimento, nos Estados Unidos o incentivo à prática de esportes - e a utilização dos mesmos para a formação de caráter e disciplina - é profundo, e com Sherman não foi diferente. Alguns vão dizer que no quesito disciplina o defensor deixa a desejar, mas isso é o outro lado da moeda e vamos deixar de lado, por enquanto. O californiano, nascido na cidade de Compton - sul de Los Angeles -, desde cedo recebeu todo o apoio e acompanhamento para, tendo vontade para tal, se tornar bem sucedido tanto como atleta quanto como pessoa.

No alto de sua high school - equivalente ao ensino médio, no Brasil -, Richard já se destacava, mas em outra posição. Atuava, muito bem, como tight end do colégio Dominguez, em sua cidade natal. Seu talento, entretanto, não se limitava ao futebol americano. Sherman, dotado de uma inteligência superior à de seus colegas, se dedicava intensamente aos estudos. Ano após ano, comparecia às chamadas aulas de AP (Advanced Placement), curso oferecido para os alunos mais qualificados e que mereciam uma preparação especial para a faculdade e participava de seminários sobre liderança, além de ser assíduo do crédito-extra, trabalhos que aumentavam suas notas.

Para termos uma noção, Keith Donerson, técnico do jogador naquela época, recentemente disse em uma entrevista: "Parecia até que Richard não morava na cidade. Ele praticava muito a leitura. Seu vocabulário era desigual. Ele não falava gírias, e as outras crianças tiravam sarro disso."

Contudo, sua qualidade acima da média e a vontade de praticar o esporte da bola oval fez de Sherman um alvo de ofertas de bolsa de estudo das principais universidades do país. Escolheu Stanford, permanecendo no estado onde sua família residia e imediatamente começou as atividades com a equipe de futebol americano.

O início nos campos universitários e as mudanças de posição

O panorama esportivo que Richard viveu nos primeiros dias de universidade foram completamente distintos do que vemos na atualidade. Em 2006, Stanford vivia um péssimo momento e terminou a temporada da NCAAf com um medíocre record de 1-11. No entanto, Sherman - que havia sido admitido no time como um wide receiver, em sua primeira troca de posição da carreira - teve uma freshman season de dar inveja a qualquer calouro. Ele atuou em todos os jogos da campanha e, apesar de ter iniciado apenas em cinco, liderou a equipe em recepções (34) e jardas aéreas (581), além de empatar na primeira posição no número de touchdowns (3).

No ano seguinte, o super contestado head-coach Walt Harris foi substituído por Jim Harbaugh, que atualmente comanda o 49ers. A novidade na beira do campo deu um ânimo a mais para todo o grupo, e Richard mais uma vez teve números expressivos. Em sua temporada como sophomore, foi dominante e líder do time nos quesitos de jardas aéreas (651) e touchdowns (4), sendo o segundo com mais recepções (39).

Em 2008, porém, as coisas não aconteceram do jeito esperado pela mídia e pelo próprio jogador. Sherman completou os quatro primeiros jogos da temporada, antes de, no quinto, contrair uma lesão no joelho que o deixou de fora do resto da campanha. Recebeu a chamada medical redshirt, e teve vários meses para se recuperar totalmente e voltar a todo vapor.

Richard usou a reabilitação não apenas para aprimorar os aspectos físicos, mas também mudou, em parte, sua mentalidade e traçou novos focos. Antes de sua temporada de retorno, recebeu de Harbaugh a permissão para deixar de ser recebedor e tornar-se um cornerback (pedido que havia feito um ano antes, mas negado pelo, na época coordenador ofensivo, David Shaw). Sherman mostrou ser certeiro em seu desejo de mudar e, esbanjando talento e dedicação, contabilizou 62 tackles, oito passes desviados e duas interceptações (uma com retorno para touchdown, a famosa pick-six).

"Como recebedor, você é limitado. Se o quarterback faz um jogo ruim, você faz um jogo ruim. Mas como cornerback, não importa o que aconteça; se você anula um jogador, você terá um ótimo dia. Você controla seu próprio destino". Sherman também acabou se tornando no principal retornador da equipe, conquistando 154 jardas - e um touchdown - em 15 punts. Em plena evolução como atleta, o CB terminou sua trajetória universitária deixando um ótimo cartão de visitas e tendo contabilizado números expressivos. Era hora de dar o salto para a National Football League.

Subestimação no draft e grande sucesso com o Seahawks

Sherman teve ótimo desempenho no papel de cornerback em uma revitalizada equipe de Stanford por duas temporadas consecutivas e, apesar das boas impressões deixadas, foi preterido por vários jogadores com currículos mais expressivos. No Combine pré-draft, registrou características acima da média, principalmente no fator físico e atlético, mas não teve jeito; os scouts insistiam que as habilidades de Richard eram boas, mas também era preciso levar em conta sua ''falta de agilidade na cobertura, fluidez e explosão para ser considerado um future starter".

Assim sendo, como já era esperado, o terceiro e último dia de recrutamento havia chegado e Sherman ainda estava disponível para escolha. O jogador já perdia a paciência e estava inquieto quando, na quinta rodada, Pete Carroll resolveu selecioná-lo. "Eu tinha parado de acompanhá-lo até ver um vídeo na nossa preparação. Quanto mais eu olhava pra ele, eu percebia o quão agressivo estava. Ele caiu algumas rodadas, então apostamos nele. Ele é muito competitivo - exatamente o que estávamos buscando", disse o head-coach do Seahawks.

Contudo, o cornerback não chegou na NFL como um imediato starter, sendo considerado apenas um bom backup. Aproveitou para estudar as diversas nuances do jogo da liga profissional e recebeu sua chance devido a lesão de um dos titulares - e, posteriormente, de outro companheiro -, mais precisamente na semana 8 da temporada de 2011, quando, além de fazer sua estreia, anotou sua primeira interceptação. De lá pra cá, Richard passou por uma crescente e já tem um talento mais do que reconhecido.

Não é preciso nem detalhar cada campanha de Sherman, tendo em vista que seu desempenho é de alto nível desde que debutou. As estatísticas falam por si só.

Richard Sherman - Estatísticas da carreira

Ano Tackles Sacks Interceptações Fumbles Passes desviados
2011 55 0 4 1 17
2012 62 1 8 3 24
2013 49 0 8 0 16

Rei das polêmicas e atitudes controversas

Sherman também tem um grande histórico de polêmicas e é conhecido como um dos maiores trash-talkers do esporte. O infeliz caso que se envolveu tratou-se do uso de substâncias inapropriadas na preparação para uma partida, em 2012, que o levou a ser pego no exame anti-doping e suspenso por quatro jogos; entretanto, o jogador conseguiu uma reviravolta judicial inesperada e a punição foi anulada. Richard também ganhou os holofotes ao, após ser esnobado na seleção para o Pro Bowl da temporada passada, responder na mesma moeda dizendo que que o evento "não significa nada". Em março de 2013, enquanto participava de um programa esportivo da ESPN, disse a seguinte frase para o comentarista Skip Bayless: "Sou inteligente o suficiente para entender que você é um cretino egoísta e ignorante. Vou acabar com você aqui pois estou cansado de ouvir sobre isso".

O caso mais recente, todavia, é também o de maior expressão e que ganhou mais atenção da mídia. Segundos depois de protagonizar a jogada que selou a classificação do Seattle Seahawks para o Super Bowl, diante do San Francisco 49ers, Richard, ainda no gramado, concedeu uma entrevista - se é que podemos chamar assim - que viraria febre nos dias seguintes. "Sou o melhor corner da liga. Quando você me desafia com um recebedor medíocre como o [Michael] Crabtree, esse é o resultado que terá. Nunca fale sobre mim". Aprove ou não tais atitudes, uma coisa é inegável: de 154ª escolha geral, Sherman provou ser o contrário do que diziam e, hoje, caminha a passos largos para o sucesso.

O Super Bowl XLVIII ocorre neste domingo (2) no MetLife Stadium. Nele, Denver Broncos e Seattle Seahawks disputarão o título da NFL. Diante de tudo isso, a equipe da VAVEL Brasil traz para você ao longo desta semana uma sequência de matérias especiais a respeito de ambas equipes (história, análise, perfis dos principais atletas) para passar todo o clima da decisão ao leitor.

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