O Pastelão Unânime
O carinho com que o artista sempre tratava o esférico

O Pastelão Unânime

Nos últimos anos diversos jogadores defenderam Vitória de Guimarães e Sporting, mas nenhum brilhou tão intensamente como o genial Pedro Barbosa

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Bruno Gomes

Vitória de Guimarães e Sporting têm tido nas suas fileiras, nas últimas épocas, diversos elementos com ligações mútuas aos dois emblemas. Seja por compra ou troca directa, por mero acaso ou por cumprirem a formação num emblema e chegarem a profissionais noutro, a verdade é que estes casos se repetem com enorme frequência. Atletas como Custódio e Nuno Assis formaram-se num clube mas foram importantes no outro. Outros não vingaram num terreno e foram fundamentais no outro, como João Alves, Dimas, Pedro Mendes ou Capucho. Há ainda aqueles que passaram pelos dois sem deixar saudades a nenhum, como Luís Filipe ou Nuno Santos.

De Alcochete para o Castelo

Na temporada passada o Vitória apostou em alguns jovens com passagens importantes pela formação leonina: João Gonçalves, Marco Matias, Amido Baldé e Ricardo. Se o primeiro infelizmente sucumbiu às lesões e viu encerrada prematuramente a carreira, a aposta nos outros três foi um sucesso. Baldé e Ricardo foram decisivos na conquista da Taça de Portugal e permitiram importantes encaixes financeiros, ao serem negociados com Celtic e Porto. Marco Matias tem-se destacado no Castelo mas com contrato prestes a terminar é natural que seja negociado em janeiro para que os vimaranenses ainda possam lucrar com ele. A receita made in Alcochete funcionou na época transata e nesta temporada Rui Vitória fez questão de a repetir. O central Josué, que já estava na equipa no ano anterior, manteve-se e dos saldos de Alvalade chegaram Nii Plange e André Santos. Se o primeiro não teria grandes ambições no reino do leão, o segundo já não pode dizer o mesmo. André Santos chega a Guimarães para relançar a carreira, mas com um estatuto diferente, já que é internacional A e há duas épocas era uma unanimidade no plantel leonino. Nos últimos anos apenas dois jogadores conseguiram brilhar em ambas as equipas: Paulo Bento e Pedro Barbosa. Se o primeiro era um obreiro eficiente e discreto, o segundo transbordava classe e acabou por ter um impacto superior em ambas as equipas. Antes de Barbosa para encontrar atletas que brilharam intensamente dos dois lados é preciso recorrer aos idos 80 e relembrar o eterno Vítor Damas e o matador Paulinho Cascavel.

O jovem Pedro e o capitão Barbosa

Pedro Alexandre dos Santos Barbosa nasceu em Gondomar e fez parte importante da sua formação no FC Porto. Dispensados dos juniores azuis e brancos rumou ao Freamunde onde se profissionalizou. Duas épocas depois, o jovem médio ofensivo rumou a Guimarães pela mão de João Alves. Na cidade berço o promissor Pedro espalhou todo o perfume do seu inebriante futebol e fez parte de grandes equipas vitorianas, actuando com nomes como Paulo Bento, Zahovic, Dane e Basílio. Foram anos de ouro de um super Vitória que lutava sempre pelos primeiros lugares e era presença constante nas competições europeias. Pedro ia crescendo individualmente com a força do colectivo, mas foi pela mão de Quinito, que explodiu definitivamente em Guimarães. O carismático treinador era um eterno amante do futebol arte e era pública a sua paixão pelo criativo médio. Tiradas saídas da sua boca como quando catalogou o jogador de “homem dos croissants” pelo estilo pastelão e arrastado – de falso lento, como que jogava ou a famosa frase: “Se tivesse muito dinheiro, comprava Pedro Barbosa para jogar comigo no meu quintal” – tornaram a passagem de Pedro por Guimarães ainda mais especial. Foi também ao serviço Vitória que o jogador se estreou na selecção nacional, sendo presença regular na equipa das quinas durantes as últimas épocas no Castelo. 

O trajecto de quatro anos chegou ao fim quando, após luta intensa com o FC Porto e diversos emblemas internacionais, o Sporting adquiriu o seu passe. Em Alvalade o promissor Pedro transformou-se no capitão Barbosa. Foram 10 épocas de leão ao peito, recheadas de lances antológicos e de genialidade pura. No Sporting foi vital no fim do jejum de 17 anos sem o título nacional e capitaneou a equipa campeã em 2002 – na última vez que os leões se sagraram campeões nacionais. Em Alvalade viveu de tudo: golos e jogadas magistrais, conquistas de Taças de Portugal e Supertaças, participações em grandes competições de selecções e ainda o universo do dirigismo desportivo. Uma espécie de Zidane à portuguesa, Barbosa era esguio, elegante e revelava uma impressionante precisão e calma nos momentos de decisão.

Como todos os génios, foi incompreendido, alvo de contestação. Era o caso típico de jogador que podia ser amado por um filho e odiado por um pai. Uns não perdoavam os seus desaparecimentos em campo mas todos deliravam com cada reaparecimento. Barbosa não era um velocista, mas quando trocava de velocidade dificilmente era travado. Na verdade, um artista deste calibre, não necessitava de correrias. Para quê correr quando se consegue desfilar com a redondinha colada ao pé, ensaiando dribles curtos e ultrapassando calmamente adversários, em ziguezagueados letais das alas para o meio, antes de desferir o tiro fatal? – Normalmente em arco, por uma questão estética. Para muitos Barbosa ficou aquém da carreira que o seu talento merecia, para sportinguistas e vitorianos soube a pouco. Amanhã quando os dois emblemas entrarem em campo, com certeza muitos se recordarão deste artista unânime. Tanta magia, deixou eternas saudades.

Recorde alguns dos lances que marcaram a carreira de um dos jogadores mais habilidosos e puramente técnicos da sua geração:

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