Carrossel de ataque é obra de Jesus
Linha ofensiva benfiquista está cada vez mais acutilante (Foto: Francisco Rocha)

Carrossel de ataque é obra de Jesus

Se a Jorge Jesus lhe pode ser imputada a tendência para acentuar demasiado a vertigem ofensiva da equipa encarnada, justo será também afirmar que, no último terço do terreno, o Benfica erigiu um carrossel táctico pleno de estratégia e de mobilidade. Parar Gaitán, Markovic, Lima e Rodrigo é tarefa hercúlea: que o diga, entre outras vítimas, o Sporting.

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O Benfica é, neste momento, a equipa da Liga Zon Sagres que melhor interpreta as movimentações ofensivas consoante as virtudes e pontos fortes dos seus jogadores mais atacantes. O mérito começa na mente de Jorge Jesus e acaba nos pés dos intérpretes benfiquistas, que, durante 90 minutos, tentam materializar em campo a ideia do seu técnico: mobilidade extrema no último terço do terreno, trocas posicionais constantes, desmarcações precedidas de sobreposições e exploração de espaços criados pelo carrossel ofensivo da equipa. Analisando a fundo a manobra atacante da formação de Jesus, o mandamento primordial preconizado pelo treinador parece apelar à liberdade táctica em detrimento da rigidez esquemática dos processos ofensivos. De Enzo para a frente, nenhum jogador encarnado se agarra à posição, nenhum permanece fixo ou «dono» de uma zona do relvado: o segredo parece ser o total envolvimento colectivo, revezamento imparável, versatilidade e alternância de posto. Mas, posto isto, até que ponto não requer a tal liberdade táctica maior trabalho de casa e uma maior exigência combinada por parte da equipa?

Estrutura ofensiva em repente mutação

Com a introdução da dupla que hoje em dia reina na linha de frente encarnada, o Benfica de Jorge Jesus refinou ainda mais a beleza e a fatalidade do seu processo ofensivo. Actuando sem ponta-de-lança mas com dois avançados extremamente ágeis, o Benfica passou a ver-se perante a possibilidade de dar vida a um ataque com tracção às quatro rodas, e não raras vezes às suas cinco rodas, já que Enzo não se faz rogado na hora de desequilibrar na frente. Com Gaitán e Markovic ligados aos dois avançados irrequietos, Jesus passou a desenhar uma maior panóplia de movimentações fatais que colocam em sentido as defesas contrárias. A liberdade táctica apresentada, fruto de um ataque multifacetado, é nada mais nada menos que o resultado das experiências do laboratório de Jesus, que encontrou, aparentemente, uma forma de ataque plena de volubilidade e maleabilidade. Para tal, o técnico combina jogadores com características semelhantes, que se complementam entre si na altura de girar o carrossel: Markovic perfura com diagonais velozes, Gaitán actua como extremo mas também cai na área do «10», Lima e Rodrigo jogam numa incessante busca pelo espaço vazio, perturbando a marcação e permitindo a entrada dos extremos pela área adentro. 

Assim, neste processo imensamente dinâmico, quem veja atentamente a forma de atacar do Benfica fica com a ideia clara de que não existem posições fixas nos últimos metros do terreno. Lima e Rodrigo surgem nas alas, obrigando a linha defensiva adversária a expandir-se e a esburacar-se, ficando à mercê das entradas, quer de Enzo, pelo centro, quer de Gaitán e Markovic, que derivam de modo impetuoso e perigoso para a fronte da área contrária. Não raras vezes vislumbramos, no ataque encarnado, uma total alteração dos posicionamentos, o que baralha por completo as marcações e desconjunta a linha recuada das vítimas do carrossel benfiquista. No último «derby», tal foi cristalino como água: no primeiro golo, Rodrigo desce para combinar com o Maxi, a meio do meio-campo oponente, enquanto Gaitán surge como avançado, em plena área leonina. Beneficiando da velocidade dos avançados, o Benfica consegue remexer-se em variadíssimas formas, fazendo da estrutura multiforme o seu maior trunfo. O mérito vai, directamente, para a ideologia ofensiva de Jorge Jesus.

Enzo: conexões sinápticas e batimento cardíaco

Neste carrossel encarnado, existe um «pivot» construtor de jogo que antecede a grande maioria dos mecanismos de ataque da equipa: Enzo Pérez. Cérebro e coração da equipa, médio pleno de garra e tenacidade, Enzo tem sido um dos melhores jogadores do Benfica nos últimos tempos, quer na hora de defender quer na hora de se abeirar para o ataque. A forma como mantém a posse de bola, ritmando o futebol da equipa e controlando o compasso táctico, contribui para a inteligência da formação aquando da manutenção da bola em pés encarnados. Gerindo passe a passe, Enzo cobre todo o perímetro do meio-campo, cavalgando vários metros quadrados e furando pelas imediações laterais do campo, sempre disponível para receber a bola, sempre apto a descobrir um parceiro desmarcado. Rápido na condução de bola, o argentino é o inquestionável «playmaker» da equipa, arriscando galopar vários metros com a bola controlada antes de a soltar: a responsabilidade que carrega, em termos tácticos, é enorme, e é com base na sua exibição de pêndulo que o carrossel encarnado começa as suas engrenagens. O médio natural de Mendoza, é, sem dúvida, a grande figura do meio-campo benfiquista, e a ausência de Matic só adicionará peso às valências do argentino.

Lima e Rodrigo não servem só para marcar

Engane-se quem pense que os dois avançados do Benfica são programados para marcar: essa é, apenas, uma das muitas tarefas que Lima e Rodrigo têm de desempenhar ao longo do jogo. Como prova o úlimo «derby», marcar não resume o aproveitamento dos dois atacantes vermelhos - as suas movimentações foram, como têm sido noutras partidas, fundamentais para o sucesso ofensivo da equipa. A velocidade de ambos, aliada à capacidade de percorrerem várias zonas do terreno em escassos segundos, permite que o Benfica atinja níveis de mobilidade enormes, o que permite equilibrar a equipa a meio-campo (na fase de construção de jogo). Enquanto a dupla se mantiver útil e profícua, trabalhando para os golos, quer sejam eles marcados pelos avançados quer pelos demais, a titularidade de Cardozo permanecerá longínqua. 

Permanecer primeiro na casa do último

Hoje, às 17 horas, o Benfica jogará, no reduto do Paços de Ferreira, a perservação dos pontos de vantagem que possui, quer para o rival Sporting, quer para o perseguidor mais directo, o FC Porto, que dista quatro pontos da equipa vermelha. Na Mata Real, os extremo vão-se tocar: o primeiro classificado, moralizado pela senda de bons resultados, encontra o último classificado, que vem realizando uma temporada para esquecer. Os escassos 13 pontos, pontuação que partilha com o Olhanense (derrotado pelo Sporting em Alvalade), contrasta com os 43 pontos encarnados, que vão liderando a tabela classificativa. O terceiro melhor ataque da prova medirá forças com a pior defesa da Liga: o Paços já viu o balançar das suas redes por 34 ocasiões, enquanto que o Benfica apenas sofreu 13 golos, mais um que FC Porto e Sporting. Para a deslocação à capital do móvel, o Benfica não poderá contar com o suspenso Enzo Pérez (viu o quinto cartão amarelo depois de uma falta sobre Adrien), que deverá dar lugar a Rúben Amorim. O português fará parelha com Fejsa. 

No Paços de Ferreira existem dois impedimentos, ambos por lesão: Buval e André Leão, este último titular habitual na formação pacense. Apesar destas duas ausências, o treinador experiente Henrique Calisto poderá contar com os retornados Tony, Rafael e Filipe Anunciação. O Paços, que apenas conta com 3 vitórias na liga, espera casa cheia e uma receita de bilheteira a rondar os 80 mil euros, a mais alta da temporada. O apoio dos adeptos será essencial para galvanizar uma equipa que se encontra desmoralizada devido ao lugar que ocupa, e que vem de uma pesada derrota por 3-0 no Estádio do Dragão, num jogo a contar para a jornada 18ª do campeonato.

Onzes prováveis

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