Análise táctica do Porto x Benfica
Duelo entre Porto e Benfica promete aquecer a Taça de Portugal

O duelo da Taça de Portugal entre FC Porto e Benfica está próximo e o panorama futebolístico nacional prepara-se para assistir a um embate de gigantes: de um lado, o tri-campeão nacional da liga portuguesa, do outro, o líder destacado do presente campeonato, voando bem longe do rival portista, num avanço considerável que se cifra nos 12 pontos. Figuras de proa de um contexto desportivo que tem, nos últimos cinco anos, relegado o Sporting para segundo plano, tanto Porto como Benfica jogam nesta eliminatória grande porção do seu prestígio, ainda para mais disputando uma competição que nenhum dos dois ganhou na época anterior.

Se para o FC Porto vencer a Taça de Portugal será uma excelente oportunidade de minimizar a péssima prestação da Liga Zon Sagres, para o Benfica tal objectivo afigura-se igualmente crucial, já que o troféu escapa aos encarnados desde a remota época de 2003/2004, quando, com José António Camacho ao leme, as «águias» bateram o mesmo rival Porto por 2-1, com golos de Simão e Fyssas.

Momento psicológico

As motivações de Porto e Benfica estão distantes, seja pelos percursos que ambos traçaram até aqui, seja pelos percalços adicionais com que se deparam pelo caminho, mais sinuoso para o Porto que para o rival lisboeta. O FC Porto começou a época com um título na algibeira: um contundente 3-0 contra o actual detentor da Taça de Portugal, o Vitória Sport Clube, mas cedo se percebeu que o fulgor inicial da equipa comandada por Paulo Fonseca não duraria o desejado. Depois de ter uma vantagem pontual de 5 pontos para o Benfica, o clube nortenho desceu a pique no plano exibicional, tremendo, desde a defesa, outrora sólida, até ao ataque. Tropeçando nos seus próprios erros tácticos e técnicos, o Porto desbaratou a vantagem e está agora a 12 pontos do líder encarnado, correndo pelo segundo lugar e tentando refrear a tristeza, afogando as mágoas na Liga Europa e na Taça de Portugal.

A equipa agora a cargo de Luis Castro terá pela frente o Benfica, o mais temível adversário nacional. Com o melhor ataque do campeonato, ao mesmo tempo que conserva o melhor registo defensivo, o Benfica já eliminou o Sporting para chegar a esta fase da competição, prova de que está apto a debater-se com unhas e dentes pela conquista da prova, objectivo que Jorge Jesus persegue desde que chegou aos encarnados, em 2009. Se a formação portista vem de um trauma de maus resultados a que se juntaram vaias e violentas desaprovações por parte dos seus adeptos, já o Benfica caminha a passos largos para o triunfo no campeonato, apresentando uma saúde de ferro na defesa e um carrossel de ataque difícil de descodificar. A vinda de Castro desanuviou o pesado ambiente portista, renovando motivações e limpando a face do Dragão, mas a mudança é ténue e a falta de confiança da equipa azul é notória, como ficou patente na derrota contra o Sporting, para a Liga, em Alvalade: Slimani marcou e não mais o Porto jogou.

Perfis tácticos

Não há segredos tácticos: o Benfica tem no seu código genético a potência ofensiva, enquanto o Porto sempre se pautou pelo equilíbrio estrutural que lhe permitia dominar as partidas de fio a pavio, munindo-se de uma defesa sólida e de um meio-campo controlador. Ora, se o Benfica continua com o mesmo fulgor ofensivo (mesmo depois das alterações tácticas que colocaram fim ao 4-2-4), já o rival portista perdeu a sua maior virtude, essa tal consolidada estrutura táctica que permitia manipular os jogos e manter os oponentes longe da sua baliza: o 4-3-3 portista desintegrou-se lentamente, não por uma inversão do modelo mas pela degradação natural do estilo de jogo e da própria (des)interpretação dos seus processos de funcionamento. A formação de Paulo Fonseca abandonou o solitário pivot defensivo (Fernando), apresentando um duplo pivot com Defour ou Herrera no perímetro outrora patrulhado pelo brasileiro. Essa ligeira alteração manteve o 4-3-3 mas desorientou princípios de construção na raiz do futebol portista, além de baralhar marcações zonais na altura de cobrir espaços.

Se a defender o Porto se tornou pior, graças também ao repetitivo erro individual, a desenvolver o jogo atacante a lição também nunca esteve bem aprendida. Lucho, jogador para toda a obra (de posse de bola, ataque organizado e finalização) não poderia estar em todo o lado, tentando muitas vezes em vão empurrar para a frente uma equipa lenta e demorada. Sem profundidade ofensiva nas faixas, o deficitário Porto era incapaz de dinamizar diagonais e movimentos interiores que permitissem aumentar a panóplia de manobras ofensivas, entregues, quase sempre, ao virtuosismo e risco dos laterais, Danilo e Alex Sandro. Na área contrária, Jackson Martínez perdia o folgo a cada jogo que passava: cada vez mais solitário, cada vez menos motivado. Às expensas das subidas de Danilo e Alex Sandro, facilmente enredados no risco despropositado, o Porto sofreu muito - a sua ineficiência estrutural prejudicou o rendimento de cada elemento, desde o guarda-redes (Helton teve momentos titubeantes) até ao avançado, que mergulhou num deserto de golos.

No Benfica, as mudanças tácticas foram progressivas, introduzidas gradualmente, à medida que a aprendizagem do seu técnico ia concebendo uma nova forma de dispôr as peças em campo. Depois de um mau começo de época, o Benfica foi-se ajustando às necessidades e acabou a primeira volta da Liga com um novo modelo de jogo assente num 4-4-2 onde os extremos se tornavam médios alas (logo, defendendo mais) e os avançados puros volantes de ataque continuado. Estas duas alterações orgânicas transformaram o Benfica numa equipas mais consistente, distante daquelaformação 4-2-4 que abria buracos no corredor central e perdia batalhas a meio-campo com relativa facilidade. O apoio dos médios alas (que fecham na zona central e pressionam com competência) e a maleabilidade técnica e física dos avançados (Lima e Rodrigo) permitiram consolidar um estilo de jogo pleno de entreajuda e de mutualismo, onde quem sai beneficiada é a inteira equipa encarnada.

Quaresma deu asas ao Dragão

Ricardo Quaresma foi a pedrada no charco no reino portista. O extremo português deu asas ao Dragão e reavivou parte do sistema operativo da equipa no que à manobra ofensiva diz respeito. Rápido, feroz nos duelos individuais e letal na quina da área, Quaresma providenciou uma das coisas que a equipa azul e branca precisava: dinamismo atacante, rasgo, imprevisibilidade. Perigoso a cruzar e igualmente perigoso a flectir para o interior da área, em busca de um remate em arco, o extremo tem sido a muleta que ajuda o Porto a caminhar. Além disso, essa dinâmica permite a criação de espaços adicionais, explorados pelos médios (sejam eles Herrera, Carlos Eduardo ou Defour) ou pelo avançado.

O rendimento de Quaresma, aliado ao reposicionamento de Fernando e à confiança depositada em Defour, têm animado o Porto dentro do relvado, apesar da debilidade geral que a equipa apresenta ainda. Luis Castro herdou um FC Porto destroçado, vazio em confiança e com um avultado medo de perder. A instabilidade emocional da equipa é bem visível e tal factor poderá ter efeitos perniciosos no próprio perfil táctico dos portistas.

Benfica de mobilidade extrema

Quer se queira quer não, este Benfica não é o mesmo da época passada. A mudança reflecte-se na disposição táctica (4-2-4 claro para um sólido 4-4-2) e também na mentalidade da equipa durante os jogos. Jorge Jesus abandonou a ideia arriscada do duplopivot, quer para defender quer para construir (Matic e Enzo eram, basicamente, todo o meio-campo benfiquista), povoando o miolo com as ajudas de Markovic e Gaitán (eles possibilitam a linha de 4 elementos no meio-campo) e reforçando o processo de pressão e de construção ofensiva com as presenças de Lima e Rodrigo, dois avançados altamente móveis e rápidos, capazes de galgar terreno em poucos segundos e de se desmarcarem até à exaustão. Dentro desta dinâmica, o Benfica tornou-se mais apto a defender porque, antes de mais, pressiona melhor e possui mais gente no meio-campo, onde os jogos se começam a ganhar.

A melhor defesa começa então, neste caso, por ser o ataque: um ataque mais cooperativo, mais móvel, mais pressionante, mais veloz, mais mexido, mais empreendedor, quer no roubo de bola quer na elaboração de jogadas. Sem o estático e lento Cardozo, ponta-de-lança que obriga o Benfica a estruturar-se para lhe providenciar golos, as «águias» tornaram-se mais flexíveis, mais imprevisíveis e com mais recursos para poder vencer sem comprometer a sua integridade global dentro de campo.

Definições de papéis no miolo portista

As indefinições tácticas do Porto foram sempre pecha clara durante esta época. A saída de João Moutinho foi mal assimilada tacticamente, o que levou a uma incompreensão da distribuição de tarefas no triângulo do meio-campo dos «dragões». Quem substituiu efectivamente Moutinho na tarefa de «box-to-box»? Defour? Herrera? Carlos Eduardo? Entre tantas dúvidas, uma certeza pareceu dar à costa: Lucho acumulou demasiadas funções e o centro do terreno portista passou a ser um modelo assimétrico e desajustado de como não atacar, o que levou a um sub-rendimento de todas as peças. Agora, parece ser Defour o tal «box-to-box»: alinhou frente ao Arouca e depois contra o Nápoles, mostrando que, com regularidade, poderá ser a opção que faltava no esquema.

Com Fejsa há maior cuidado defensivo

A introdução de Fejsa no onze encarnado veio alterar alguma da filosofia de jogo da equipa. As limitações técnicas do sérvio (quando comparado com o compatriota Matic) vieram obrigar Jesus a destacá-lo numa posição mais defensiva, mais recuada, se tivermos em conta a amplitude dos terrenos pisados por Nemanja Matic. Com a saída de Matic e com a entrada de Fejsa, o Benfica trancou as portas da defesa, trancando igualmente o portão do meio-campo. Tudo isso porque Jorge Jesus confiou a construção inicial de jogo a Enzo apenas, deixando Fejsa livre para patrulhar e auxiliar a defesa, quer nas dobras aos laterais, quer na ajuda dada aos centrais, cobrindo pontos desnudos do campo e actuando, por vezes, como um terceiro central.

Técnica benfiquista é trunfo que Porto não tem

Em termos globais, o Benfica faz-se valer de um estofo técnico-táctico que o rival Porto simplesmente não tem. Sendo a melhor defesa e o melhor ataque da Liga nacional, o Benfica move-se com confiança dentro das quatro linhas, munindo-se de executantes que deixam água na boca dos adeptos que amam o futebol bem jogado. As comparações são objectivas: a dupla de centrais do Benfica defende eficientemente e marca golos em barda (levam, ambos, 12 golos marcados nesta época) a do FC Porto nem uma coisa nem outra; o meio-campo encarnado possui um talento portentoso, pleno de raça e de qualidade técnica, Enzo...o Porto não consegue equiparar-se ao Benfica nesse aspecto; Nas faixas, o Benfica possui talento aos magotes, além de gozar da possiblidade de alterar as suas escolhas sem perder qualidade...o Porto não o consegue fazer, nem de perto nem de longe.

No ataque, Rodrigo e Lima cooperam entre si para dar fluência, quer ao meio-campo quer ao ataque, arma estrutural que o Porto não possui. Os portistas terão a vantagem de jogarem perante o seu público mas terão de apresentar novos dados para que possam contemplar realisticamente a possibiliade de bater o Benfica nesta primeira mão da meia-final da Taça de Portugal, já que os encarnados levam vantagem técnica e táctica, vivendo também um momento anímico bem mais forte que os rivais nortenhos.

Onzes prováveis

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