A religião Benfica
Fotos: Isabel Cutileiro

Foi no ano 2014 depois da morte de Jesus Cristo, no dia da celebração da sua ressurreição, que o Benfica angariou o seu 33º campeonato nacional. 33 Títulos, número igual à idade de Jesus quando faleceu. E com outro Jesus no comando, muitas são as analogias bíblicas a serem tecidas.  Afinal, Jorge Jesus é o 42º treinador do Sport Lisboa e Benfica e 42 eram as linhas de cada página da 1ª bíblia impressa, por Guttenberg.

Se no último domingo se celebrava, religiosamente, o dia da ressuscitação do maior líder religioso, também haveria de se dar lugar à celebração do mais carismático treinador em Portugal. Depois da crucificação na época passada, Jorge Jesus soltou finalmente as amarras da cruz e seguiu em festa para junto do seu rebanho. Milhares de benfiquistas se mostravam reticentes em seguir o líder. Os seus argumentos pareciam pouco credíveis, mesmo que eficazes, e nenhuma águia queria sofrer do fanatismo de outrora.

Jesus precisou de provar, de forma matemática, às ovelhas mais descrentes, que a glória era possível. E até ao golo do discípulo Lima muitos o queriam seguir em festejo, mas poucos se sentiam confiantes para o fazer. Só no minuto 92 todos fizeram, finalmente, as pazes com o seu superior. Estava reunido um consenso fanático sobre o objecto de devoção, o Benfica, e o povo decidiu sair à rua.

Os festejos do passado domingo revelam que a devoção ao Benfica transborda do amor de cada adepto. O que se passou na capital, e um pouco por todo o globo, faz transparecer que o clube da Luz vale tanto como uma fervorosa religião. E de fanatismos se faz o maior clube do país. Só algo tão poderoso como o amor a um Deus explica a marcha de festejo que os benfiquistas prosseguem para celebrar o seu troféu. Clubismos à parte, porque cada clube reúne os seus crentes fiéis, não existe igual em Portugal.

Há quem lhe chame mística, há quem o descreva como amor, aquela irracionalidade que acompanhou os benfiquistas num domingo de Páscoa. Mas que foi contrária ao sentimento vivido na restante época. Se há algo que Jesus ensinou aos seus adeptos, é que a relutância deve prevalecer sobre o entusiasmo. E a contenção no festejo desta temporada, misturada com uma apreensão justificada, tornou a festa mais especial. Se a Páscoa é uma altura para ser celebrada em família, o conceito estendeu-se, e todos os que desfilaram de cachecol ao pescoço tornaram-se familiares para os seus pares, numa celebração feliz.

Jesus Cristo tinha 12 discípulos, sendo que Judas era um deles. Como neste Benfica não existem traidores, Jorge Jesus fez entrar 11 apóstolos: OBLAK, MAXI, ANDRÉ ALMEIDA, LUISÃO, GARAY, ENZO, ANDRÉ GOMES, SALVIO, GAITÁN, LIMA e RODRIGO. E assim, merecidamente, saiu da cruz para o pedestal.

Faltam celebrar-se Fejsa, Sálvio ou mesmo Rúben Amorim que ajudaram à consolidação deste Benfica. E celebrar-se a paciência dos adeptos, que jornada após jornada, viram mudanças de direcção na construção da sua equipa. A mudança constante dos apóstolos no terreno poderia ter trazido contrariedades maiores. Jesus, com teimosia de líder, e autoridade descredibilizada, tomou as suas decisões em prol do colectivo e saiu em ombros. «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim, que Sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o Meu jugo é suave e o Meu fardo é leve.», pronunciou Jesus Cristo ao seu povo.

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