James Hunt, uma vida nos limites
O rebelde que marcou uma era da F1. James Hunt. (Imagem: motorsportmagazine)

James Hunt, uma vida nos limites

Fez no passado Domingo 21 anos que o mítico piloto faleceu. Hoje, fazemos uma breve retrospectiva da vida de "Hunt the Shunt".

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Fábio Mendes

Há pessoas que nascem para deixar uma marca profunda por onde quer que passem, fruto da sua maneira de estar e do seu carácter. Hunt deixou essa marca e não deixou ninguém indiferente ao seu estilo irreverente. Amado e odiado, Hunt foi das figuras mais interessantes da F1 dos anos 70.

Os primeiros anos de vida e as primeiras corridas

Os primeiros anos de vida de James Simon Wallis Hunt, nascido a 29 de Agosto de 1947, não  faziam prever que se tornaria num ídolo da Formula 1. Educado numa família abastada e onde a disciplina era palavra de ordem, desde sempre que o espírito rebelde de Hunt se revelou. Embora o seu plano de vida consistisse em tornar se medico, aos 18 anos viu a sua primeira corrida de carros (Minis) e apaixonou-se pela competição e pela velocidade. Os pais sempre negaram apoiar esta ideia, mas com esforço e trabalho conseguiu entrar no mundo das corridas.

Iniciou-se nas corridas de Mini´s. A estreia não correu bem, pois o carro tinha irregularidades que o impediram de competir nesse dia. Mas não desistiu e arranjou fundos para correr em 3 eventos. Para isso teve de arranjar patrocinadores e trabalhar arduamente.

O início nos monolugares

Em 1968 entrou a na Formula Ford, onde começou a dar nas vistas pela sua rapidez mas também pela espectacularidade da sua condução. Foi também aí que começou a apresentar ao mundo o seu comportamento intempestivo, com vários acidentes no seu currículo e várias "trocas de mimos" com outros pilotos à mistura também.

Iniciou-se em 1969 na Formula 3. Causou logo grande impressão e foi considerado um dos pilotos mais promissores nesse ano.

Em 1972 começou a competir pela equipa March, em Formula 3 mas em Maio perdeu o lugar na equipa para Jochen Mass. Hunt pediu para o deixarem usar um dos carros que não estavam a ser usados pela equipa. O pedido foi aceite mas a pouca fiabilidade do carro impediu-o de mostrar o seu real valor. No GP do Mónaco, contra as ordens de Max Mosley, chefe da March, Hunt correu com um carro de uma equipa adversária. Depois desse episódio suspendeu relações com a March. Foi entretanto empregado pela equipa Heskethteam, que dava os primeiros passos nas corridas. Embora o seu rendimento tenha sido fraco nas primeiras corridas pela nova equipa, o patrão deu lhe a oportunidade de conduzir na F1, uma vez que o objectivo da equipa era competir ao mais alto nível.

Da entrada na F1 pela Heskethteam até ao confronto com Lauda

A luta que ficou para a história: Hunt - Lauda (s/d).

De 73 a 75 ficou na Heskethteam, onde atingiu resultados surpreendentes para uma equipa recém-chegada e não levada muito a sério pelos adversários. Em 75 chegou a sua primeira vitória, mas a equipa ficou sem fundos para se sustentar e Hunt ficava sem assento na F1.

Em 76 mudou-se para a Mclaren ocupando o lugar deixado vago por Fittipaldi (a  mudança para a McLaren não foi vista com bons olhos por parte de alguns membros da equipa uma vez que a fama do seu temperamento volátil já o perseguia). Fez o seu melhor ano na Formula 1. O confronto com Lauda chegou a um nível espantoso. Hunt beneficiou do acidente de Lauda, que quase lhe provocava a morte, ficando sem correr apenas 2 corridas. As últimas corridas foram renhidas e a decisão do campeonato ficaria para a última prova no Japão. Mas as condições adversas da corrida, com muita chuva fizeram Lauda desistir. Hunt que liderou corrida a maior parte do tempo teve um final atribulado, com probelmas num pneu e muita confusão na Pit Wall. Mas no final conseguiu fazer 3º e conquistar os pontos suficientes para se sagrar campeão.

Os anos a seguir ao campeonato

Ficou na Mclaren até 79. Em 78 ficou marcado pela morte do seu amigo e companheiro de pista Ronnie Peterson. Hunt tentou salva-lo e conseguiu tirar o piloto do mar de chamas mas a morte de Peterson foi anunciada horas depois no hospital. Hunt culpou Riccardo Patrese pela morte do seu amigo, mas as imagens mostram que o italiano não tem culpa. Essa acusação foi mantida por Hunt anos a fio e a animosidade para com o piloto italiano também permaneceu.

Depois de uma época má, mudou se em 79 para a Wolf Team, mas um carro difícil de conduzir e pouco fiável levou que, depois de desistir em Mónaco, onde se tinha estreado 6 anos antes, anunciasse a sua saída da competição.

Em 1980 ainda tentou o seu regresso as pistas. A McLaren pediu para substituir o lesionado Prost mas Hunt pediu um milhão por corrida, algo que não foi aceite. Em 82 pediu para voltar à Williams mas o seu rendimento não foi o melhor num teste realizado em Paul Riccard. Nunca mais pilotou um F1.

A dupla Hunt/Walker

Hunt e Walker fizeram dupla na BBC sendo ainda hoje uma as mais relembradas. (imagem:motorsportmagazine)
James Hunt (à esquerda), como comentador, na companhia de Murray Walker (s/d).

Depois de ter desistido da F1 em 79, foi abordado pela BBC para fazer comentários aos GP de F1, juntamente com Murray Walker. A parceria seria muito difícil, com um Hunt ao seu estilo, irreverente e pouco dado a regras e com um Walker com uma postura de gentleman completamente oposta a Hunt. Muitos dos comentários de Hunt são míticos, pois não se coibia de dizer o que pensava e sem eufemismos. Ainda hoje esta dupla de comentadores é recordada como uma das mais marcantes.

Morreu em 19993 devido a um ataque cardíaco, em sua casa, em Wimbledon, aos 45 anos, poucas horas depois de pedir Helen Dyson em casamento.

O legado de James Hunt

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Hunt e Suzy Miller, sua primeira mulher (s/d).

James Hunt marcou uma era da F1. O seu estilo irreverente causava ódios e paixões (foi considerado por alguns o pior campeão do mundo de sempre pelo seu feitio difícil). O seu charme fez dele o “James Bond” da F1 (algo retratado de forma muito criativa pelo Tooned da McLaren). As histórias à volta de Hunt são mirabolantes. Diz-se que 2 semanas antes do GP do Japão, onde se sagraria campeão, se tinha fechado num quarto de hotel com 33 hospedeiras de bordo, e com Barry Sheene, seu amigo que competia nas 500cc.

E depois de se sagrar campeão voou para Inglaterra, onde continuou o festejo durante 12 horas chegando ao destino perdido de bêbedo encontrando-se com a sua companheira no aeroporto . O sexo e as drogas eram uma constante. Muitas vezes aparecia a fumar ou a beber antes das corridas. Diz-se que não prescindia do sexo pouco antes das corridas tendo sido inclusive apanhado por Patrick Head com as calças nos tornozelos, minutos antes da largada. O seu ritual era completado ao vomitar as drogas e o álcool antes de entrar para o carro. Para além das mulheres, que conquistava com uma facilidade tremenda, o seu temperamento impetuoso levava o a entrar em sessões de pancadaria com frequência. No mesmo GP do Japão, pensou ter perdido o campeonato devido a confusão nas boxes e foi em direcção a Teddy Mayer, chefe de equipa, para acertar contas com ele por ter tido uma má opção estratégica. Felizmente soube que tinha sido campeão antes de chegar a vias de facto.A sua rebeldia levava a que aparecesse em cerimónias de gala com jeans e t shirts e fosse consequentemente criticado pela falta de respeito. No seu fato tinha um autocolante que dizia «Sexo. O pequeno-almoço dos campeões».

Um talento apenas mascarado pela sua irreverência

Mas Hunt era mais do que um figurão. Era um piloto talentoso. Rápido, destemido, agressivo, que temia morrer em pista mas que nunca teve medo de ir ao limite. A combinação Hunt com o carro M23, fez tremer toda a gente e demorou muito até a McLaren voltar a reencontrar o rumo das vitórias. E só com Mansel voltaria a haver um britânico campeão do mundo.

Niki Lauda (à esquerda) com James Hunt (s/d).

Hunt marcou uma era. Criou um estilo novo. O Bad Boy, que nada teme, que aproveita a vida ao maximo e que vai para a pista com tudo. Kimi Räikkönen, grande admirador de Hunt, é provavelmente neste momento o último piloto a usar essa forma de estar na F1. Teve tambem com Lauda uma rivalidade feroz dentro de pista, mas ambos mantinha uma relação próxima fora dela, com ambos os pilotos a admitirem a admiração que tinham um pelo outro.

Todas as histórias à volta de James Hunt fazem dele uma figura mítica das pistas, numa altura em que «o sexo era seguro e pilotar era perigoso». Mas Hunt foi acima de tudo um apaixonado pela velocidade e pela adrenalina, que viveu a vida ao limite. Curiosamente morreu pouco tempo depois de ter largado os vícios e de ter iniciado uma vida saudável abdicando dos comportamentos de risco e apostado em levar uma vida tranquila. É essa paixão que deve ser lembrada. É o seu talento que deve perdurar ao longo dos tempos. "Hunt the Shunt" foi sem duvida um dos mais especiais pilotos a correr na F1.

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