Porque razão não temos selecção
Tempos actuais dão vermelho à selecção portuguesa

Porque razão não temos selecção

Vavel Portugal faz um périplo analítico pelas decisões do seleccionador nacional, pelos erros da Federação Portuguesa de Futebol e pela desvalorização do jogador português, identificando os erros que cortaram as pernas a Portugal neste Mundial 2014.

vavel
VAVEL

Centremo-nos primeiramente na convocatória portuguesa feita por Paulo Bento: uma média de idades a rondar os 29,5 anos de idade, a quarta selecção mais velha do Mundial 2014, composta, em grande maioria, pelo mesmo lote de jogadores que actuara no Euro 2012. De facto, desde a partida contra a Espanha até à jornada inaugural do Mundial 2014, apenas existiu uma alteração no onze e mesmo essa não significou qualquer mudança estrutural: em vez de Postiga Bento colocou Hugo Almeida na frente de ataque. Comecemos então pela escolha dos vinte e três - controversa e ao mesmo tempo compreensível, foi assim que se dividiram as opiniões à data da divulgação da lista.

Controversa porque...

Controversa para uns porque deixara de fora vários jogadores que tinham realizado uma temporada completa a bom ritmo e com boas indicações técnicas: Adrien, motor do meio-campo do Sporting, fora dos convocados; Cédric Soares, lateral direito indiscutível do mesmo Sporting, segundo classificado da Liga, de fora também; Danny, extremo crucial no Zenit, de fora; Quaresma, mágico ressuscitado no FC Porto, igualmente fora das opções; Carlos Mané, jovem surpresa que subira a pulso no Sporting durante a época, também relegado; Bebé, estrela única do naufrágo Paços de Ferreira, outro preterido; Anthony Lopes, titular do Lyon, não seleccionável; Ricardo, guardião salvador da Académica, idem; André Gomes, médio promissor encarnado que começou a despontar na Luz, o mesmo destino; André Martins, médio leonino rodado, semelhante fim. A lista é extensa.

Compreensível porque...

«Compreensível» foi a avaliação que outros opinadores fizeram, baseando a argumentação numa realidade que parece saltar à vista desarmada: a selecção nacional carece de outros valores superiores que pudessem destronar a velha armada lusitana que tem acompanhado Paulo Bento (muitos acompanharam também Queiroz e Scolari) nos últimos anos. Apesar da média de idades elevada e a necessitar de urgente renovação, a falta de talentos indiscutíveis foi a constatação que validou grande parte das escolhas de Bento para a odisseia no Brasil. Sem avançados que pudessem fazer sombra ao trio Postiga-Almeida-Éder, as opção ofensivas de Bento seriam lógicas. Tal como no meio-campo, órfão de um médio de óptima qualidade, à semelhança de Rui Costa ou Deco. O encadeamento argumentativo parece fazer sentido mas trata-se apenas de uma falácia que é-lo por omitir causas e efeitos.

A falácia da ausência de novos talentos

Trata-se de uma falácia enganadora pois omite o que é realmente necessário para que existam novos talentos a despontar no seio do futebol português. E toda essa lógica falaciosa assenta num pressuposto errado, rudimentar, desacertado e tremendamente superficial: diz-se, então, que estagnámos na evolução qualitativa dos nossos jogadores, que escasseiam os talentos. A verdade é que tal visão revela a forma errónea e inconsequente como o futebol português é pensado e idealizado. Os bons jogadores não nascem das árvores nem caem do céu - tal  evento necessita de uma política de protecção do talento jovem, uma aposta na formação contínua e na responsabilização profissional, que implica experiência, maturidade, desafio e estímulo.

Tal só acontece se existir um esforço conjunto que abranja e fomente uma política de rejuvenescimento do campeonato português, sendo responsabilidade primacial da Federação Portuguesa de Futebol e do seu corpo técnico alinhavar e idealizar as linhas estruturantes do processo, afinal, para que serve o organismo público e o staff técnico que escolhe? Somente para escolher 23 jogadores e actuar dentro do relvado? Essa é somente uma parte do dever do seleccionador. A restante terá de prender-se com a obrigação de zelar pelo planeamento a médio e longo prazo da salvaguarda táctica e técnica de uma nação, futebolisticamente falando. Caso contrário, o trabalho de um seleccionador aparentará ser obscenamente cómodo.

Esse planeamento obriga, não só a uma constante supervisão de todo o futebol português, como ao acompanhamento da evolução das políticas de formação e aposta nos talentos das academias, criando concertações de objectivos entre a FPF e a grande maioria dos clubes profissionais, assim como uma rede de profissionais que trace, conjuntamente com os clubes, metas atingir no que toca ao aumento do jogador português nos quadros dos plantéis, diminuindo, por conseguinte, a vasta maioria de estrangeiros, que até inundam, imagine-se, as equipas B's. Só assim poder-se-á atestar o real valor dos talentos novatos. Da forma que o futebol luso está edificado, é impossível aferir da verdadeira qualidade dos seus benjamins: a maioria dos jogadores é desaproveitada, lançada às equipas B's eternamente, secundarizada por jogadores estrangeiros de qualidade duvidosa e chegando tarde aos palcos da pressão e da experiência.

Há, portanto, uma mentalidade que secundariza o talento nacional, desde as camadas jovens até à idade da explosão: por ironia diabólica, quando o jogador chega aos 24 ou 25 anos, logo é 'enterrado' pela crítica desportiva por não ter, à idade, nem a qualidade necessária nem a tarimba e a experiência dos grandes desafios. Destino? Uma carreira medíocre. Não apostamos nos jogadores portugueses e depois criticamos a sua falta de potencial. Esta é a verdade crua: só crescem grandes jogadores se a eles for dada a luz da ribalta, a pressão do erro, o desafio das feras, as consequências da vitória e da derrota, os conselhos, a atenção, o tempo e a tranquilidade profissional.

Portugal não o faz. A Federação não tem nem nunca teve uma ideia sobre tudo isto. Os seleccionadores, salvo raríssimas excepções, não pensam sequer no tema. Os clubes são negligentes, esbanjadores de talento e injustos para com os seus novatos. A opinião crítica segue o mesmo caminho. Esta é a falácia: não podemos menosprezar o jogador português a toda a linha e depois esperar que ele, sem acompanhamento, surja como opção credível numa convocatória para um Mundial. Tal é praticamente impossível e enquanto não percebermos isto, andaremos simplesmente a mentir a nós mesmos. Esta selecção actual é fraca porque viveu ao sabor das circustâncias, sem ordenamento racional nem trabalho de fundo. Há falta de talento porque todos assim o quiseram. 

Cargo de seleccionador não se esgota no verbo «seleccionar»

Deve o seleccionador escolher, mas não só. Acompanhar progressos, incentivar a experiência, colaborar com os clubes no sentido de maximizar titularidades, tudo isto também deveria fazer parte das obrigações do cargo. Sensibilizar para um maior competitividade assente na utilização dos jogadores jovens, tendo, como autoridade legitimadora, a própria Federação. Apesar de parte dessa função ser de cariz quase 'diplomático', outras formas mais práticas podem perfazer essa directriz - colocar mais jogadores jovens nos jogos amigáveis e nos encontros que o seleccionador ache mais apropriados (nas Qualificações o que não faltam são selecções débeis...). Assim se afere a capacidade dos jogadores e a forma como estes lidam com a exigência das partidas e das expectativas.

Num exemplo próximo, Paulo Bento pouco ou nada acrescentou à selecção de 2012, colocando pouquíssimos novos jogadores na esquadra lusa, em adições pontuais e sem continuidade efectiva. Apesar do treinador esclarecer que existiram as tais adições (falou de sete introduções novas, o que, de facto, é verídico) a verdade diz-nos também que tais introduções foram somente casos particulares sem repercussão no corpo da equipa. Tirando William Carvalho, adição atrasada diga-se, todos os restantes de que Bento fala não entram nas contas da titularidade: a formação que enfrentou a Alemanha (o tal onze ideal de Bento) não contou com nenhum desses jogadores - apenas devido a lesões o seleccionador alterou o figurino.

Se formos analisar a metodologia de selecção do antigo treinador leonino, apenas vislumbramos um critério: o da antiguidade, o argumento hierárquico e grupal da solidez colectiva como busílis da força de um conjunto que se transformou mais em clube e menos em selecção. Nenhuma oportunidade (sequer em amigáveis) foi dada a jogadores fora do círculo de confiança de Bento, mesmo apesar das boas prestações que vários elementos seleccionáveis foram dando ao longo destes 2 anos: José Fonte, central em destaque na Premier League, foi invisível para Bento. Eliseu, lateral do Málaga, também. Paulo Oliveira (Vitória Sport Clube) e Miguel Rodrigues (Nacional) também nunca foram lembrados; Rúben Vezo, no Valência, a mesma coisa;  Tiago Ilori, emprestado ao Granada, outro invisível ao olho do staff luso; Ronny Lopes, em ascensão na carreira (City e agora Lille) nunca mereceu a confiança de um desafio para graúdos; Ricardo Horta (Vitória Futebol Clube) o mesmo, assim como Luiz Gustavo, do Rio Ave.

A lista continua: Pedro Tiba (Vitória Futebol Clube) realizou uma excelente época mas passou despercebido; Gonçalo Santos, médio defensivo do Estoril que agora reforça o campeão croata, também não impressionou Bento; Diogo Amado teve o mesmo destino apesar da boa época estorilista; Bruno Fernandes, ao serviço da Udinese, levou o mesmo tratamento, tal como Paulo Machado, que agora reforça o Dinamo Zagreb; André, médio vitoriano com qualidade, também nunca foi opção, assim como o jovem colega João Amorim; nem Rafael Lopes, que marcou tantos golos como Hugo Almeida na passada época, mereceu uma única chamada; o rol de opções nunca tomadas pode tornar-se interminável se a estes nomes juntarmos jogadores desaproveitados pelos seus clubes. Será que a geração encarnada de benjamins (Cancelo, Bernardo, Hélder Costa, Guzzo, Rúben Pinto, Bruno Varela ou Fábio Cardoso) também irá pelo mesmo caminho?

Sem nunca testar, modificar, experimentar, inventar, arriscar, Paulo Bento nunca renovará a selecção, assim como nenhum seleccionador renovará o que quer que seja, seja em que país for. Quem poderá afirmar com certeza que os nomes acima citados envergonhariam a camisola das quinas? Se nunca lhes dermos a chance de mostrarem o seu valor no enquadramento competitivo da selecção (e, claro dos clubes) nunca poderemos realizar uma escolha convicta. Como poderemos saber quais são os melhores se apenas seleccionamos os mesmos? Estaria Adrien em pior forma que Meireles? Antunes comprometeria mais que Veloso na ala esquerda? José Fonte tremeria das pernas quando jogasse com a Alemanha, mais que Bruno Alves ou Pepe (que diga-se mostrou total desconcentração)? Cédric faria pior que João Pereira? Mané será pior que Vierinha?

E no ataque, será que os 43 golos de Marco Paixão (nestes dois últimos anos) valem menos que os golos de Postiga, Hugo Almeida e Éder, que tiveram épocas repletas de lesões? Bebé faria pior que os três avançados seleccionados, que mais não conseguiram que ficar em branco, com dois deles a sairem do Mundial de modo precoce e a roçar o ridículo? Não saberemos, pois a estes foi-lhes vedado qualquer acesso à selecção, sequer uns poucos de minutos num reles amigável, para sentir o pulso à exigência da camisola. Com uma mentalidade poeirenta de elitismo, Portugal continua a olhar para 90% dos jogadores portugueses com o menosprezo com que sempre os tratou. E a prova disso é que, até chegarem a um «grande», dificilmente um luso poderá aspirar a vestir a camisola das quinas...mesmo que o seu rendimento assim o exija. 

Não podemos, portanto, cair na hipocrisia da argumentação da ausência de talentos. O futebol português, a FPF, os clubes, os seleccionadores (Scolari incluído), os treinadores e os adeptos assim o quiseram. Concordando, centrando atenções nos mesmos, seguindo o mediatismo bacoco e pouco atento, abafando aqueles que ficam de fora desse circo informacional, desvalorizando políticas de restrição de estrangeiros e encarando a selecção como um clube de sócios honorários que entram devido «às provas dadas no passado», independentemente das suas formas actuais e capacidades técnicas, físicas e mentais (Pepe, desequilibrado constante, é mais volátil que Quaresma?). 

A hipocrisia e a demagogia

Afirmar, como o comentador Bruno Guerra, que querer lutar por títulos com equipas baseadas na formação é «pura demagogia», é lançar a hipocrisia para a argumentação, pelo simples facto que tal posição sustenta uma desvalorização preconceituosa em relação à qualidade dos jovens que se iniciam na aventura futebolística, catalogando-os genericamente como inaptos, medíocres, banais ou inqualificados para jogar ao mais alto nível, dando primazia às negociatas vindas do sul das Américas, do Leste da Europa e doutras zonas do globo que parecem ter mais futebol nas pernas que nós. Pois não têm.

E, por hipocrisias como estas, o que Portugal não tem é um futebol apostado em maximizar o investimento que faz nas formações, encontrando aí um modelo de vivência adequado às suas possibilidades, onde o jogador luso tem preponderância na sua liga, em vez de ser ultrapassado pela predominância dos estrangeiros.

 

VAVEL Logo
CHAT