Há precisamente 35 anos, no circuito de Dijon-Prenois, a Formula 1 vivia um acontecimento histórico: a primeira vitória de um motor V6 Turbo, através do Renault de Jean-Pierre Jabouille, o culminar de quase dois anos de esforços da marca francesa desde a sua chegada à categoria máxima do autonobilismo. Mas essa vitória ficou ofuscada por um duelo "nos limites" entre o outro Renault Turbo, guiado por René Arnoux, e o Ferrari flat-12 guiado pelo franco-canadiano Gilles Villeneuve. Esse duelo ficou marcado nos olhos dos fãs do automobilismo, que hoje em dia ainda falam desse dia.

Potência em vez de aerodinâmica

Tinha-se passado mais de um mês sobre o última corrida, no Mónaco. Pelo meio, no calendário oficial da Formula 1, estava marcado o GP da Suécia, em Anderstorp. Mas a falta de dinheiro do promotor e o desinteresse dos suecos pela Formula 1 após as mortes de Ronnie Peterson e de Gunnar Nilsson, no final do ano anterior, fizeram com que a corrida fosse cancelada em meados de maio. Nessa temporada, as equipas apostavam na aerodinâmica, no sentido de levar o conceito de "carro-asa" o mais longe possivel, e a Lotus tinha colocado em pista o seu modelo 80, o sucessor do vencedor 79, não chegaram à conclusão de que não era eficaz, e fora retirado, passando os seus pilotos, o americano Mario Andretti e o argentino Carlos Reutmann, a usar o modelo anterior. Outra equipa, a Arrows, decide apostar também na aerodinâmica e estreava em paragens francesas o seu modelo A2, um conceito mais radical de "carro-asa".

Contudo, noutras equipas, os problemas eram mais humanos. A francesa Ligier e a canadiana Wolf tiveram de substituir os seus pilotos por motivos diferentes. A primeira teve de arranjar um substituto para Patrick Depailler, que se acidentara dias antes quando fazia asa-delta no centro de França e tivera ferimentos graves nos tornozelos. O seu substituto era o belga Jacky Ickx, já na curva descendente na sua carreira, mas ainda a dar cartas na Endurance. No caso da Wolf, James Hunt tinha decidido pura e simplesmente abandonar o automobilismo, cansado e desmotivado depois de seis anos de carreira ao mais alto nível. No seu lugar, veio o finlandês Keke Rosberg, o pai do atual lider do campeonato, Nico Rosberg.

Nesse final de semana em paragens francesas, os Renault queria impressionar a concorrência com a mais recente evolução do seu motor V6 Turbo, e estavam imparáveis, monopolizando a primeira fila da grelha. Jean-Pierre Jabouille levou a melhor sobre René Arnoux, enquanto que na segunda fila estavam o Ferrari de Gilles Villeneuve e o Brabham-Alfa Romeo de um jovem brasileiro chamado Nelson Piquet, que fazia nesse ano a sua primeira temporada completa na Formula 1. Aquele quarto lugar na grelha era a sua melhor posição até então. Na terceira fila tinham ficado o Ferrari de Jody Scheckter - o lider do campeonato - e o segundo Brabham-Alfa Romeo do austriaco Niki Lauda. O austrialiano Alan Jones era sétimo, no seu Williams, com o Ligier de Jacques Laffite ao seu lado. A fechar o "top ten" estavam o segundo Williams do suiço Clay Regazzoni e o Tyrrell de outro francês, Jean-Pierre Jarier.

Villeneuve contra os Turbo

No dia da corrida, perante 120 mil espectadores, Gilles Villeneuve consegue surpreender os dois Renault no momento da largada e passa para o comando da corrida, seguido por Jabouille, Scheckter, Piquet, Jarier, Lauda, Laffite, Jones e Arnoux. Nas voltas seguintes, Villeneuve e Jabouille distanciam-se do pelotão, enquanto que Arxoux - que fizera uma má partida - efetuava uma corrida de recuperação. Na terceira volta tinha passado Jones e Laffite e na 11ª volta era quarto, depois de passar Piquet.

Por esta altura, Villeneuve distancia-se, mas a meio da corrida, o piloto da Ferrari já perdia terreno para Jabouille, que no final da volta 46, consegue ultrapassar no final da recta da meta, ficando com o comando para não mais o largar.

Villeneuve tentava manter-se no encalço de Jabouille, mas com a degradação dos seus pneus e a menor potência do seu motor flat-12 em relação aos motores V6 Turbo, ele deixa escapar o piloto francês. E para piorar as coisas, via aproximar-se o segundo piloto da Renault. De tal forma que na volta 76, a quatro do fim, Arnoux já estava suficientemente perto para tentar fazer uma ultrapasagem, de forma a garantir a dobradinha à marca francesa. Villeneuve tentava defender-se travando o mais tarde possivel, mas isso degradava ainda mais os pneus.

O duelo que ninguém esquece

Na volta 78, Arnoux aplica o turbo na reta da meta e passa o canadiano, no sentido de assegurar a segunda posição. A multidão rejubila, pois parece que vai ser a corrida perfeita para os carros franceses. Contudo, Villeneuve não desistiu e decide tentar recuperar o seu segundo lugar na volta seguinte, com uma travagem nos limites. Consegue ficar lado a lado com Arnoux na entrada da curva e reconquista o segundo posto.

Mas no inicio da última volta, Arnoux tenta a sua sorte, repetindo a manobra de Villeneuve, na volta anterior. O canadiano está por fora, mas não desiste, e tocam rodas pela primeira vez. Mais adiante, há novo toque, que coloca Arnoux fora da pista, mas sem perder o controlo do seu carro. Villeneuve tenta passar, mas tocam as rodas uma terceira vez, com o francês na frente da Ferrari, mas por pouco tempo. Na subida para a curva Parabolique, Villeneuve fica lado a lado com o Renault e tocam rodas pela quarta vez... em pouco mais de 200 metros. Mas o canadiano fica com o segundo posto.

Entretanto, na frente, e desconhecendo o que se passava, Jabouille ia a caminho daquilo que viria a ser uma vitória cem por cento francesa no Grande Prémio francês: chassis, motor, pneus (Michelin) e gasolina (Elf) eram todas francesas. E o piloto, claro. E a primeira da Renault. Mas o segundo lugar era o duelo que todos queriam saber. E no final, ficou nas mãos de Villeneuve, que tinha conseguido impedir a dobradinha francesa.

No final da corrida, respondendo aos críticos que classificaram as manobras de ambos os pilotos como "perigosas", Villeneuve respondeu apenas: «Foi divertido.» Depois do pódio, nos restantes lugares pontuáveis ficaram o Williams de Alan Jones, o Tyrrell de Jean Pierre Jarier e o segundo Williams de Clay Regazzoni.

No dia a seguir, os jornal L'Equipe tinha Jabouille na capa, mas a última página estava cheia de fotos do duelo Arnoux-Villeneuve, sinal de que o duelo tinha sido excitante para os espectadores. Mas havia um pequeno grupo que não estava muito feliz com isso: os próprios pilotos. Quinze dias depois, quando o circo da Formula 1 foi para Silverstone, Arnoux e Villeneuve foram chamados pela GPDA, a associação de pilotos, então liderado por Niki Lauda.

Este queria repreender os pilotos pela manobra que fizeram, e disse-o na reunião: «Vocês pilotaram em Dijon de uma maneira perigosa e danificaram a imagem deste desporto». Arnoux respondeu: «Contigo, isto jamais teria acontecido porque... você levantaria o pé logo de imediato!». Quanto a Villeneuve, este ouviu-os e virou as costas aos pilotos, abandonando a sala e rir de toda esta situação.