França 1979: nunca um vencedor foi tão esquecido
O pódio: Jabouille (centro), um sorridente Villeneuve (à dir.) e Arnoux (à esq.) (foto Bernard Cahier/Arquivo Cahier)

França 1979: nunca um vencedor foi tão esquecido

Há precisamente 35 anos, a Formula 1 via um motor turbo vencer uma corrida. Mas esse triunfo foi praticamente ofuscado por uma luta pelo segundo lugar entre Gilles Villeneuve e René Arnoux que entrou nos anais da história do automobilismo.

Speeder76
Paulo Alexandre Teixeira

Há precisamente 35 anos, no circuito de Dijon-Prenois, a Formula 1 vivia um acontecimento histórico: a primeira vitória de um motor V6 Turbo, através do Renault de Jean-Pierre Jabouille, o culminar de quase dois anos de esforços da marca francesa desde a sua chegada à categoria máxima do autonobilismo. Mas essa vitória ficou ofuscada por um duelo "nos limites" entre o outro Renault Turbo, guiado por René Arnoux, e o Ferrari flat-12 guiado pelo franco-canadiano Gilles Villeneuve. Esse duelo ficou marcado nos olhos dos fãs do automobilismo, que hoje em dia ainda falam desse dia.

Potência em vez de aerodinâmica

Jabouille, pela Renault, em 1975 (Foto: scan por RX-Guru).

Tinha-se passado mais de um mês sobre o última corrida, no Mónaco. Pelo meio, no calendário oficial da Formula 1, estava marcado o GP da Suécia, em Anderstorp. Mas a falta de dinheiro do promotor e o desinteresse dos suecos pela Formula 1 após as mortes de Ronnie Peterson e de Gunnar Nilsson, no final do ano anterior, fizeram com que a corrida fosse cancelada em meados de maio. Nessa temporada, as equipas apostavam na aerodinâmica, no sentido de levar o conceito de "carro-asa" o mais longe possivel, e a Lotus tinha colocado em pista o seu modelo 80, o sucessor do vencedor 79, não chegaram à conclusão de que não era eficaz, e fora retirado, passando os seus pilotos, o americano Mario Andretti e o argentino Carlos Reutmann, a usar o modelo anterior. Outra equipa, a Arrows, decide apostar também na aerodinâmica e estreava em paragens francesas o seu modelo A2, um conceito mais radical de "carro-asa".

Contudo, noutras equipas, os problemas eram mais humanos. A francesa Ligier e a canadiana Wolf tiveram de substituir os seus pilotos por motivos diferentes. A primeira teve de arranjar um substituto para Patrick Depailler, que se acidentara dias antes quando fazia asa-delta no centro de França e tivera ferimentos graves nos tornozelos. O seu substituto era o belga Jacky Ickx, já na curva descendente na sua carreira, mas ainda a dar cartas na Endurance. No caso da Wolf, James Hunt tinha decidido pura e simplesmente abandonar o automobilismo, cansado e desmotivado depois de seis anos de carreira ao mais alto nível. No seu lugar, veio o finlandês Keke Rosberg, o pai do atual lider do campeonato, Nico Rosberg.

O Renault de Arnoux em 1979 (Foto: Renault).

Nesse final de semana em paragens francesas, os Renault queria impressionar a concorrência com a mais recente evolução do seu motor V6 Turbo, e estavam imparáveis, monopolizando a primeira fila da grelha. Jean-Pierre Jabouille levou a melhor sobre René Arnoux, enquanto que na segunda fila estavam o Ferrari de Gilles Villeneuve e o Brabham-Alfa Romeo de um jovem brasileiro chamado Nelson Piquet, que fazia nesse ano a sua primeira temporada completa na Formula 1. Aquele quarto lugar na grelha era a sua melhor posição até então. Na terceira fila tinham ficado o Ferrari de Jody Scheckter - o lider do campeonato - e o segundo Brabham-Alfa Romeo do austriaco Niki Lauda. O austrialiano Alan Jones era sétimo, no seu Williams, com o Ligier de Jacques Laffite ao seu lado. A fechar o "top ten" estavam o segundo Williams do suiço Clay Regazzoni e o Tyrrell de outro francês, Jean-Pierre Jarier.

Villeneuve contra os Turbo

No dia da corrida, perante 120 mil espectadores, Gilles Villeneuve consegue surpreender os dois Renault no momento da largada e passa para o comando da corrida, seguido por Jabouille, Scheckter, Piquet, Jarier, Lauda, Laffite, Jones e Arnoux. Nas voltas seguintes, Villeneuve e Jabouille distanciam-se do pelotão, enquanto que Arxoux - que fizera uma má partida - efetuava uma corrida de recuperação. Na terceira volta tinha passado Jones e Laffite e na 11ª volta era quarto, depois de passar Piquet.

Por esta altura, Villeneuve distancia-se, mas a meio da corrida, o piloto da Ferrari já perdia terreno para Jabouille, que no final da volta 46, consegue ultrapassar no final da recta da meta, ficando com o comando para não mais o largar.

Villeneuve tentava manter-se no encalço de Jabouille, mas com a degradação dos seus pneus e a menor potência do seu motor flat-12 em relação aos motores V6 Turbo, ele deixa escapar o piloto francês. E para piorar as coisas, via aproximar-se o segundo piloto da Renault. De tal forma que na volta 76, a quatro do fim, Arnoux já estava suficientemente perto para tentar fazer uma ultrapasagem, de forma a garantir a dobradinha à marca francesa. Villeneuve tentava defender-se travando o mais tarde possivel, mas isso degradava ainda mais os pneus.

Villeneuve no seu Ferrari (Foto: s/d).

O duelo que ninguém esquece

Na volta 78, Arnoux aplica o turbo na reta da meta e passa o canadiano, no sentido de assegurar a segunda posição. A multidão rejubila, pois parece que vai ser a corrida perfeita para os carros franceses. Contudo, Villeneuve não desistiu e decide tentar recuperar o seu segundo lugar na volta seguinte, com uma travagem nos limites. Consegue ficar lado a lado com Arnoux na entrada da curva e reconquista o segundo posto.

Mas no inicio da última volta, Arnoux tenta a sua sorte, repetindo a manobra de Villeneuve, na volta anterior. O canadiano está por fora, mas não desiste, e tocam rodas pela primeira vez. Mais adiante, há novo toque, que coloca Arnoux fora da pista, mas sem perder o controlo do seu carro. Villeneuve tenta passar, mas tocam as rodas uma terceira vez, com o francês na frente da Ferrari, mas por pouco tempo. Na subida para a curva Parabolique, Villeneuve fica lado a lado com o Renault e tocam rodas pela quarta vez... em pouco mais de 200 metros. Mas o canadiano fica com o segundo posto.

Entretanto, na frente, e desconhecendo o que se passava, Jabouille ia a caminho daquilo que viria a ser uma vitória cem por cento francesa no Grande Prémio francês: chassis, motor, pneus (Michelin) e gasolina (Elf) eram todas francesas. E o piloto, claro. E a primeira da Renault. Mas o segundo lugar era o duelo que todos queriam saber. E no final, ficou nas mãos de Villeneuve, que tinha conseguido impedir a dobradinha francesa.

No final da corrida, respondendo aos críticos que classificaram as manobras de ambos os pilotos como "perigosas", Villeneuve respondeu apenas: «Foi divertido.» Depois do pódio, nos restantes lugares pontuáveis ficaram o Williams de Alan Jones, o Tyrrell de Jean Pierre Jarier e o segundo Williams de Clay Regazzoni.

No dia a seguir, os jornal L'Equipe tinha Jabouille na capa, mas a última página estava cheia de fotos do duelo Arnoux-Villeneuve, sinal de que o duelo tinha sido excitante para os espectadores. Mas havia um pequeno grupo que não estava muito feliz com isso: os próprios pilotos. Quinze dias depois, quando o circo da Formula 1 foi para Silverstone, Arnoux e Villeneuve foram chamados pela GPDA, a associação de pilotos, então liderado por Niki Lauda.

Este queria repreender os pilotos pela manobra que fizeram, e disse-o na reunião: «Vocês pilotaram em Dijon de uma maneira perigosa e danificaram a imagem deste desporto». Arnoux respondeu: «Contigo, isto jamais teria acontecido porque... você levantaria o pé logo de imediato!». Quanto a Villeneuve, este ouviu-os e virou as costas aos pilotos, abandonando a sala e rir de toda esta situação.

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