O que se passa com a formação do Sporting?

O que se passa com a formação do Sporting?

Apesar de figurar no 7º lugar dos clubes não pertencentes às 5 melhores ligas do mundo que mais jogadores lhes forneceu e de continuar a lançar jovens com alguma regularidade, é evidente que algo não vai bem na academia do leão.

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João Carlos Fervença

Nesta semana que findou, o Sporting foi distinguido pelo relatório do Observatório do Futebol (CIES) como o 7º clube mundial (exceptuando os que fazem parte das 5 principais ligas – Alemanha, Inglaterra, Espanha, França e Itália) que mais jogadores forneceu a essas mesma ligas.

Este reconhecimento não pode surpreender até mesmo os menos atentos, pois o Sporting, juntamente com clubes como o Vitória de Guimarães e o Vitória de Setúbal, é dos que mais aposta na prata da casa no nosso campeonato. Para além disso, dos que mais exporta jogadores para ligas competitivas e o único que pode reclamar como “suas” 3 bolas de ouro (4 em Dezembro). Isto é indesmentível, são factos. Mas será que ser o clube com mais jogadores das suas categorias de base, por si só, deverá ser algo a elogiar? Por outras palavras, deverá a formação ser um fim em si mesmo, e não um meio para atingir um fim? E ser um clube de formação é o quê mesmo? Ganhar os campeonatos de juvenis ou juniores, ou garantir uma transição estruturada e certeira dos meninos para a equipa principal?

É impossível dar uma resposta a estas questões com que todos concordem. É um debate há muito tempo existente no futebol.

Na minha opinião, a formação não pode ser um fim em si mesmo. Principalmente no caso do Sporting.  O objectivo número 1 dum clube da grandeza do Sporting é ganhar títulos. Ponto. Tendo uma formação com a (reconhecida) qualidade que tem, só tem é de potenciar os seus miúdos para que possam aparecer na equipa A e contribuir para a busca do principal objectivo do clube. Mas fazê-lo com cabeça, não correndo o risco de queimar jogadores. E, para mim, tanto se queima jogadores apostando neles muito cedo, como muito tarde. A grande dificuldade aqui é encontrar o timing certo para cada um. O processo não pode ser igual para todos. Alguns precisam de ficar 1-2 anos na equipa B para subir, outros precisam de sair da zona de conforto e experimentar ligas mais competitivas, e outros precisam é de estar logo com os melhores na equipa principal do Sporting.

Posto isto, não posso estar satisfeito ou de acordo com a gestão feita neste campo no último ano e meio. Se há jogadores que apareceram e que já tiveram impacto na equipa principal como o William Carvalho, Carlos Mané ou João Mário, outros ainda não apareceram e eu não consigo compreender o porquê, atendendo também à política de transferências do clube.

Mané desponta em Alvalade

Sendo mais específico, manter jogadores como o Wallyson e o Iuri Medeiros (“consegue” ser suplente por muitas vezes) pelo 2º ano consecutivo na equipa B não entra na cabeça de ninguém que os conheça minimamente bem. Será que não se aprendeu com o caso João Mário, que perdeu 6 meses de competição no ano passado? Jogadores com a maturidade táctica do Wallyson e com o talento do Iuri tinham de estar na 1ª liga. Muitos me dirão que o Iuri não tem cabeça, é indisciplinado, não corre, etc. Vejam as prestações do Iuri na equipa nacional sub21 onde o contexto competitivo é infinitamente superior, ou a quantidade de golos e assistências que fez no ano passado no seu primeiro ano de sénior. Na minha opinião têm lugar de caras no plantel do Sporting ou, dando um desconto, em pelo menos 80% das equipas da 1ª liga. Na 2ª liga é que não podem continuar!

Mais do que estes jogadores em concreto não terem aparecido ainda, nota-se (e quem o tentar desmentir não está a ser imparcial) que o Sporting preparou muito mal (mesmo) a sua equipa B nesta época e que algo não vai bem na formação. Como é que é possível que já se tenha trocado de treinador principal na equipa B e de treinador dos juniores em Outubro? E o que se estará a passar para que o responsável principal da formação (Bento Valente) também já tenha batido com a porta e que outros clubes, como por exemplo o Benfica, apresentem equipas muito mais fortes nos escalões de formação?

Formação da Luz com valores na calha (Foto: Phillipp Schmidli/Getty)

Estará o Sporting a ficar para trás neste campo? Se me perguntarem se acho que o Benfica vai lançar mais jogadores da formação nos próximos meses/anos  que o Sporting na equipa principal vou responder peremptoriamente que não. Mas o facto do Benfica não aproveitar o talento que tem no Seixal (o caso do Bernardo Silva dá-me vontade de rir) não pode servir de desculpa para qualquer acto de gestão menos bem feito pelo Sporting.

Em suma, um clube que tem a formação como seu baluarte, que tem jogadores como Rui Patrício, William, Adrien, João Mário ou Nani nos seus quadros e como pedras basilares (e na selecção) tem de ter especial atenção à forma como gere as suas equipas de base e a transição dos seus pupilos. Algo não vai bem na equipa B e na academia do Sporting, e é imperial que se inverta isso.

NOTA: É importantíssimo que todos os adeptos tenham uma coisa ciente nas suas cabeças: nem tudo o que sai da formação é ouro. Sejam críticos. Não criem mitos ou estrelas. Limitem o vosso “wishfull thinking”. Todos sonham que apareça o próximo Cristiano Ronaldo, mas lembrem-se que Cristiano Ronaldo só há 1 e, muito provavelmente, nunca existirá outro que sequer se aproxime.

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