Sporting x Benfica: 4-3-3 versus 4-1-3-2 em análise
Foto original: Sega/Football Manager 2015

Sporting x Benfica: 4-3-3 versus 4-1-3-2 em análise

Na antecâmara do «derby» Sporting x Benfica, Vavel Portugal faz uma análise completa e rigorosa aos mecanismos tácticos de ambos os rivais. Especial atenção dada à vertente estrutural das equipas, suas formas de desenvolver jogo e estratégias a implementar no próximo Domingo.

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No Domingo o futebol português terá diante de si, por mil olhos de uma atenta transmissão directa, o grandioso «derby» Sporting x Benfica, prato forte da jornada 20 da Primeira Liga portuguesa. No palco de Alvalade XXI, o Sporting, terceiro classificado, irá receber o grande rival eterno, Benfica, num jogo que pode permitir a aproximação dos Leões às Águias. Estes são os cenários em cima da mesa: caso o Sporting triunfe, a chama do campeonato reacende-se com total intensidade, e os Leões mordem os calcanhares à liderança encarnada (que poderá ficar apenas a 4 pontos); em caso de empate, o Porto poderá destacar-se na perseguição ao líder (e ficar a apenas 4 pontos); em caso de triunfo do Benfica, nova vaga de liderança incontestada se perspectiva.

O Porto jogará em Moreira de Cónegos com os olho em Marafona (neste Sábado) e os ouvidos em Alvalade (no Domingo): caso vença, ganhará sempre pontos aos rivais; já o Sporting, confiante devido aos sucessivos triunfos na Liga, recebe de cabeça erguida o Benfica, apostando todas as fichas numa vitória caseira que permita sonhar, com mais realismo, com o campeonato nacional. O Benfica, líder ainda folgado, «olha para baixo» (como afirma Jorge Jesus) e vai à selva do Leão para decepar, pela raiz, as chances de uma verosímil candidatura leonina ao título - se derrotado, o Sporting volta aos 10 pontos de atraso e o Benfica ao estatuto de dominador totalitário da Liga.

'Factor casa' é sopro a favor do Leão

Não há como contornar o óbvio cenário: jogar em casa, num jogo equilibrado como um «derby», é sempre mais fácil que uma espinhosa deslocação ao reduto de um visceral rival. Aqui o Sporting tem uma clara vantagem, natural de quem joga em casa - ambiente favorável, estádio cheio de adeptos leoninos. Antes do arranque do jogo, a teórica vantagem está do lado dos anfitriões. E, mesmo depois do apito inicial, o factor casa pode trabalhar (motivar) a favor do clube de Alvalade, seja nos aplausos a um bom corte, a um sprint esforçado para resgatar uma bola perdida ou mesmo num remate esperançoso à baliza contrária. É claro que tudo pode desabar perante um golo madrugador dos encarnados - daí as reservas quanto ao rótulo de favorito de qualquer um dos clubes...

Sporting empolgado contra Benfica graúdo

No plano psicológico, as duas formações chegam ao «derby» com estados de alma díspares: o Sporting encontra-se totalmente empolgado, vivendo a euforia de uma série excelente de triunfos na Primeira Liga, enquanto o Benfica, habituado a liderar a tabela desde o começo, vai a Alvalade munido da experiência de envergar a patente de campeão nacional. Um Sporting jovem e revitalizado contra um Benfica graúdo e confiante no seu talento. Mas se a subida do leão tem sido imparável, a liderança do rei Benfica sofreu um abanão em Paços de Ferreira - a derrota na Mata Real impediu que os encarnados colocassem uma mão na Liga, e, simultaneamente, aumentou a esperança leonina em almejar o topo da classificação.

Análise táctica: Sporting em 4-3-3 clássico contra Benfica de 4-1-3-2 esfíngico

Entremos agora na análise aprofundada dos sistemas tácticos de Sporting e Benfica, esqueletos que edificam a tipologia de jogo de ambas as equipas; olhando para o ponto de partida leonino, verificamos que Marco Silva dispõe as suas peças num clássico 4-3-3 sólido e pleno de suporte angular, que dá primazia à consistência do meio-campo, sempre composto por três elementos. William Carvalho actua como pivot defensivo, e, no Domingo, desempenhará, devido à força ofensiva do Benfica, um papel mais defensivo/posicional: jogará como trinco, tapando as linhas de passe para Jonas e Lima, cortando as áreas de actuação trequartista de ambos e fechando as diagonais de Salvio e Ola John.

William será a bússola do tridente a meio-campo

William Carvalho é, sem dúvida, um dos intérpretes mais cruciais no desenho táctico do Sporting: é nele que Marco Silva confia a estabilidade e balanceamento da estrutura leonina - William terá de pisar os metros quadrados certos, garantindo que o quarteto defensivo tem uma bússola geográfica e dando ao meio-campo um impulso inicial. Caso consiga pensar o primeiro passe, poderá o Sporting respirar por fracções de segundo, escapando à pressão das setas encarnadas - para que tal aconteça, Adrien terá que auxiliar William nas coberturas defensivas, fazendo valer a superioridade numérica do Sporting no meio-campo (3 para 2 elementos do Benfica). Ambos terão que tapar as acções interiores dos extremos encarnados, assim como obstaculizar as derivações de Talisca e dos avançados móveis.

William escuda, Adrien pensa e João Mário abeira-se do golo: assim se organiza o tridente nuclear do Sporting. Adrien funciona como número 8 à semelhança de um «box-to-box» pouco físico mas com competente compreensão táctica. Servindo os propósitos de um pêndulo, Adrien terá a responsabilidade de cobrir a amplitude do corredor central, pensando a construção do jogo leonino e pressionando a saída de bola de Talisca e Samaris. João Mário, jocker de meio-campo, jogará de perfil com Adrien mas será o elemento mais ofensivo do tridente, com liberdade para penetrar na área, derivar para espaços vazios (e arrastar marcações) e destabilizar a harmonia defensiva do Benfica.

Nani: em todos os corredores e sempre com acutilância

É ele o bastião leonino, seja no cômputo técnico seja no cômputo psicológico - se Nani está confiante, é bem provável que toda a equipa assim se sinta também. Nani é o maestro dos últimos retoques ofensivos, o condutor principal dos desequilíbrios, quer nas faixas quer no corredor central. Graças à sua experiência e inteligência táctica, Nani sabe atrair as atenções das defesas, minimizando os efeitos das mais precavidas acções defensivas zonais e concentradas. É capaz de obrigar a compensações que perturbam e comprometem a homeostase táctica do adversário, permitindo espaços para colegas desmarcados. Não se limita ao papel de extremo: foge com bola pelo miolo e desentope as linhas laterais - recordemos o Sporting 1-1 Porto...

O plano ofensivo do Sporting reside nos bons mecanismos do quarteto João Mário-Nani-Carrillo-Montero: nesse momentâneo losango de ataque, as trocas de bola e os próprios movimentos off the ball são essenciais para quebrar a muralha contrária. Carrillo e Nani desbloqueiam, fortíssimos no um-para-um (o Benfica quererá evitar duelos desse género, sobrepondo atenções na quina da sua área e obrigando os extremos a trabalhar...) e Fredy Montero desliza para longe dos locais óbvios do ponta-de-lança, entrando nas combinações e tentando abrir clareiras na defensiva oponente. Slimani, menos móvel e menos refinado na posse de bola, deverá ser preterido - sua presença obriga o Sporting e bombear cruzamentos que, em 80% dos casos, revelam-se ineficientes e potencialmente perigosos para o equilíbrio táctico da equipa (posse de bola torna-se menos fiável).

Sem 'regista' nem construtor recuado, Benfica é de tracção às laterais

O actual Benfica não goza da presença de um playmaker designado - sem o versátil Matic, regista de talento, nem Enzo Pérez, motor de jogo que pegava na bola na primeira fase de construção e arrancava o futebol das águias, o Benfica conta com Anderson Talisca, Samaris e Pizzi, todos eles jogadores longe de poderem desempenhar, no imediato, o papel de chefe de construção do jogo encarnado. Assim sendo, a formação de Jorge Jesus, que permanece fiel a um meio-campo com apenas dois médios centrais, apoia-se cada vez mais na capacidade de condução de bola e ruptura dos seus extremos: a profundidade de jogo de Salvio e Gaitán, aliada à perspicácia da batuta do canhoto (pensa e define a jogada), sustentam grande parte do fluxo atacante do Benfica.

Poderá este facto táctico entupir o jogo do Benfica? A hipótese é real e, se for acentuada pelo labor árduo do meio-campo leonino, os encarnados poderão ter séries dificuldades para dominar a luta do centro do terreno - tal como aconteceu no empate 1-1 em Alvalade, na temporada 2013/2014. Caso o Benfica não consiga criar superioridades nas faixas, o trabalho de William poderá ser mais fácil que o esperado. Mas tudo leva a crer que o 4-1-3-2 de Jorge Jesus provoque calafrios no jovem Sporting - apesar de iminentemente ultra-ofensivo (e potencialmente descompensado) o sistema esfíngico de Jesus é requintado o suficiente para deixar em xeque a formação leonina. Com laterais super-ofensivos, um médio de contenção (médio defensivo estilo Anchorman) e um trio de médios (dois médios alas e um médio pivotal), o Benfica faz chegar a bola aos dois avançados móveis - Lima e Jonas.

Samaris joga à frente da dupla Jardel-Luisão, controlando os espaços e fazendo fluir a troca de bola encarnada até ao momento da transição; os laterais Eliseu e Maxi Pereira projectam-se constantemente (terão de o fazer menos vezes contra o Sporting), oferecendo linhas de passe e auxiliando (com sobreposições e diagonais) os extremos - Maxi tem sido imprescindível na penetração ofensiva. Talisca faz as vezes de Enzo, num processo de adaptação que ainda vai distante do ideal aperfeiçoamento táctico; Longe de ser um 6 e a uma distância considerável de se tornar num «box-to-box» de alta intensidade, o brasileiro tenta disfarçar a natural imaturidade com faltas em catadupa e rasgos verticais que permitam desferir a sua perigosa meia-distancia.

Segredo ofensivo do Benfica: alas mortíferas e avançados trabalhadores

É nas alas que estão as eficazes gazuas que o Benfica usa, insistentemente, para abrir as defesas contrárias; Salvio na direita e Gaitán na esquerda, vezes sem conta de modo simultâneo (e com trocas), usam a velocidade, o controlo de bola, as mortíferas diagonais (Gaitán/Ola John correm para a meia-lua para servir de 10 e Salvio fura pela área fingindo-se de avançado interior) para sobrecarregar as muralhas contrárias e baralhar as marcações. Gaitán é o rei das assistências e Salvio é ameaça letal quando dentro da área de rigor. No carrossel ofensivo de Jorge Jesus entram também os avançados Lima e Jonas - essenciais e preciosos para que a táctica encarnada funcione. 

Lima é o mouro de trabalho da Luz. Incansável a procurar espaços (um dos espécimes mais parecidos com o papel táctico de Raumdeuter), Lima está em constante busca pelas bolsas de ar nas estrutura adversárias, procurando farejar a melhor desmarcação, a fim de ajudar a equipa a criar jogadas de perigo. Assíduo nos recuos até ao meio-campo (para auxiliar colegas nas tarefas de pressão e ocupação dos espaços) e exímio na derivação para as faixas, Lima sabe perfeitamente como esticar a linha defensiva contrária, aumentando as probabilidades de a esburacar - não raras vezes vemo-lo a assistir os colegas para golo. Jonas, avançado de classe, dá a frieza do killer instinct ao ataque benfiquista, sabendo funcionar bem como pivot das jogadas de ataque: bom a jogar de costas para a baliza, irá cair na zona cega de William, que terá de abrir bem os olhos...

 

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