Oliveirense suspeita de combinar resultados
Federbet aponta o dedo à Oliveirense

Oliveirense suspeita de combinar resultados

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O relatório da Federbet, uma organização responsável pelo combate à fraude de apostas «on-line» no espaço europeu, aponta claramente para indícios incontornáveis de combinação de resultados na segunda liga portuguesa. Os três jogos que despertaram a atenção da Federbet (fundada em 2010) têm todos um denominador comum: a Oliveirense. Em questão estão os jogos Oliveirense 1-2 Benfica B, Trofense 3-0 Oliveirense e Portimonense 1-0 Oliveirense.

O organismo europeu apresentou em Bruxelas o estudo (época 2013/2014) que desenvolveu na área concernente aos resultados combinados, flagelo que tem ganho relevo com o desenvolvimento do mercado das apostas e a sua generalização no desporto. Segundo esse mesmo estudo, as evidências de combinação de resultados «não deixam dúvidas», afirma a Federbet. Apesar de colocar o enfoque nos três jogos acima mencionados, o relatório levanta um pouco mais o véu da suspeição: «há outros casos» na segunda liga, mas não tão inequívocos como os apontados.

Como transcreve o jornal «Público», a Federbet indica que «há outros jogos estranhos em Portugal, sempre na II Liga», isentando desse modo a divisão principal do futebol nacional. As análises a este tipo de fraudes e manipulações são feitas a partir de monitorizações de fluxos de capital, supervisão das flutuações das probabilidades (níveis anormais/ilógicos indiciam fixação de resultados) e as tendências das apostas. Francesco Baranca, secretátio-geral do organismo, apontou para as 3 derrotas da Oliveirense, sugerindo que os adversários não estivessem, provavelmente, a par do hipotético esquema de manipulação.

Em reacção a este relatório, o presidente da Oliveirense, José Godinho, negou peremptoriamente as alegações da Federbet, afirmando que «é tudo mentira». Acusando o documento de «não ter qualquer fundamento», escusando-se a aprofunfar o tema: «Não há nada a comentar. A Oliveirense não combinou jogo nenhum e, inclusive, perdemos os três jogos, estando numa posição complicada na tabela», concluindo, portanto, que nada «faz sentido».

Liga remete dados para a Justiça

Segundo avança o jornal «Expresso», a Liga Portuguesa de Futebol Profissional já desencadeou a comunicação do caso para as entidades competentes: Procuradoria-Geral da República, Ministério Público e Polícia Judiciária, de modo a dar início a uma investigação com base no relatório da Federbet. O presidente do órgão, Mário Figueiredo, declarou ao «Expresso» que a Liga «tudo fará para que seja apurada a realidade dos factos», não existindo reservas no que ao combate à corrupção desportiva e financeira diz respeito.

A necessidade de legislar sobre o mercado das apostas

Mário Figueiredo ataca o Governo e a sua inércia no que ao mercado das apostas concerne, criticando o monopólio da Santa Casa da Misericórdia e a falta de legislação sobre as apostas «on-line». «Ando há dois anos a pedir ao Governo que legisle sobre as apostas desportivas em Portugal, que ainda não ilegais», clarificou, apontando números que muita falta fariam aos cofres do futebol português: «o Governo prefere manter o monopólio da Santa Casa da Misericórdia em matéria de apostas desportivas, deixando escapar receitas do jogo on-line de 700 milhões a 1000 milhões por ano», explicou.

A exposição argumentativa do presidente da Liga prosseguiu: «não havendo legislação e regulação (...) é impossível garantir uma monitorização que permita identificar eventuais situações de manipulação e corrupção», critica Figueiredo, explicando o buraco legislativo que permite (e potencia) a opacidade, tanto desportiva como económica: «As casas de apostas que existem operam fora de Portugal, estão sedeadas em off-shores e nós continuamos aqui com a cabeça enfiada na areia: não havendo legislação, não podemos ter uma entidade que monitorize e regule as casas de apostas que operam com o futebol português».

Um alerta internacional que Portugal deve ter em atenção

O holandês Pim Verschuuren, especialista em matéria de corrupção desportiva, alertou, em Abril passado, para os perigos crescentes da corrupção no futebol, modalidade que movimenta milhões e carrega consigo múltiplas partes envolvidas em negócios e transacções de bens e tráfico de influências, tudo vectores que propiciam o branqueamento da verdade desportiva, ao mesmo tempo que mancham a legitimidade económica inerente à sua condição primordial de competição sã e justa. Orando num seminário proveniente de uma iniciativa da Santa Casa (a mesma que detém o monopólio das apostas desportivas em Portugal...), Pim alertou para o crescente fenómeno da manipulação de resultados na Europa.

Dando França e Aústria como exemplos da rápida proliferação de esquemas corruptos dentro da modalidade, o holandês ilustrou a perniciosidade de algo que Portugal começa agora a contemplar, à luz do caso veiculado pela Federbet: «Não podemos esquecer-nos que existe uma rede internacional, uma máfia que procurar estender os seus tentáculos a outros países europeus», afirmou, fazendo incidir a génese no aumento da proporção das apostas. A solução? «Cooperação entre todos os países europeus para coordenarem políticas de combate (...) regulamentar as apostas desportivas e impor restrições», explicou.

A fraude Mundial

A fraude da corrupção desportiva é cada vez mais um fenómeno global que se entranha em todas as amplitudes do desporto: no caso do futebol, o seu interesse é, obviamente, elevado. Movimentando-se num mercado sem regulação apropriada, a manipulação de resultados é já um problema geral e não um mero evento que se possa particularizar de ânimo leve. Um relatório da FIFA aponta para um tremendo aumento do número de tentativas de manipulação, feitas inclusive em ambiente de Copa do Mundo. A matéria, à qual o «New York Times» teve acesso, reporta dados de corrupção de 2010 em diante, indicando a fragilidade do evento desportivo e a sua permeabilidade a fraudes deste tipo. 

As organizações que gerem, calculam e elaboram as redes de manipulação, têm, cada vez mais, uma palavra a dizer no que toca à decorrência das partidas, já que os seus tentáculos influenciam as arbitragens, como explicita o caso «Ibrahim Chaibou», veiculado na reportagem do jornal norte-americano, que pode ser lida aqui. Os jogos amigáveis das selecções têm sido reportados como os alvos mais apetecidos para a manipulação, como se atesta nas alegações de condenados pelo crime de combinação de resultados. Um dos mais afamados condenados, ligado à máfia de Singapura, Wilson Raj Perumal, afirmou em Abril que ajudou a Nigéria e as Honduras a qualificarem-se para o Mundial 2010, na África do Sul. 

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