Ferrari: cavalo rampante a duas velocidades

Ferrari: cavalo rampante a duas velocidades

2014 será mais um ano na seca de títulos da Ferrari, que dura já desde 2008. Com a paciência a esgotar-se em Maranello e com alguns dos principais rostos a enfrentarem a porta da saída, Alonso e Räikkönen vão procurando fazer o melhor que podem com um carro claramente abaixo dos padrões da famosa scuderia italiana.

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Hugo Picado de Almeida

2014 não será ainda o ano da Ferrari. A mítica marca italiana, cuja história se funde com a da própria F1, não lidou da melhor forma com os requisitos técnicos dos novos monolugares, e conquanto tenha recuperado algum fôlego nas últimas corridas da primeira parte da época, Alonso e Räikkönen foram visão comum no meio do pelotão.

A fiabilidade não basta

Depois dos cinco anos de total domínio com Michael Schumacher ao volante (2000-2004), a Ferrari tem-se debatido por regressar ao topo da F1: a última vez que um piloto seu venceu o título foi em 2007, com Kimi Räikkönen, ainda que em 2008, embora tendo perdido o título para Lewis Hamilton e a McLaren, a Ferrari venceu o campeonato de construtores com o segundo lugar de Felipe Massa e o terceiro de Kimi Räikkönen. E ao que tudo indica, ainda não será 2014 a ver a marca do Cavallino subir ao primeiro lugar da tabela.

Alonso tem conseguido brilhantes desempenhos, na medida do que o F14 T permite (Foto: Ferrari).

O F14 T que a Ferrari apresentou no início da temporada rapidamente se mostrou irregular, e embora muitíssimo fiável na sua mecânica, praticamente sem registo de qualquer quebra ou falha, tem sido alvo de críticas de ambos os pilotos da scuderia. Alonso e Räikkönen queixarem-se frequentemente da difícil dirigibilidade dos respectivos monolugares, referindo tanto problemas de subviragem como de sobreviragem, e também de pouca estabilidade durante a travagem, com o finlandês a apresentar maiores dificuldades do que o espanhol a contrariar os vícios do carro. Apesar disso, a maior falha do F14 T parece resisidr decididamente na falta de potência da unidade motriz desenvolvida pela Ferrari. Um dos principais problemas deve-se ao facto do motor turbo dos italianos ser demasiado pesado para o carro, com a revista alemã Auto Motor und Sport a apontar mesmo que a unidade poderá estar 13kgs mais pesada do que seria expectável. Em recta, tem sido notória a impossibilidade da Ferrari competir com equipas como a Mercedes, que lidera na velocidade de ponta em 2014, e perante quem os italianos são em média 10km/h mais lentos.

As vítimas do insucesso

E se mais provas de novo insucesso anual da equipa de Maranello fossem necessárias, a demissão do histórico director desportivo da Ferrari, Stefano Domenicali, é comprovativo maior do mau momento da scuderia. No cargo desde 2008, curiosamente a data do último triunfo da marca (e apenas no campeonato de construtores), o famoso director da equipa não resistiu à seca de resultados, tendo afirmado que «Há momentos na vida profissional de uma pessoa em que é preciso ter coragem para tomar decisões difíceis. Está na altura de fazer uma mudança importante. Como director desportivo assumo toda a responsabilidade pela situação que estamos a viver e por isso esta decisão é uma forma de mudar radicalmente o ambiente e tomo-a para o bem do grupo.»

Marco Mattiaci (Foto: Ferrari/Ercole Colombo).

Domenicali foi prontamente substituído por Marco Mattiaci, responsável da marca na América do Norte. Embora sem qualquer experiência no mundo da companhia, a verdade é que o italiano tem sabido dar novo impulso ao grupo de trabalho, e ainda que se debata com o défice de potência do F14 T, as prestações do monolugar, muito fruto dos pacotes de desenvolvimento que tem recebido, têm permitido ver os carros vermelhos em prestações mais agradáveis, sobretudo assinadas pelo espanhol Fernando Alonso, que se tem revelado exímio em extrair toda a potência de um carro aquém das expectativas e no domar de um Cavallino que nem sempre lhe obedece como esperado.

Recorde-se ainda que, já no início de Agosto, outro nome forte da Ferrari viu-lhe indicada a porta de saída: Luca Marmorini, director de motores e electrónica, já não estará presente em Maranello no que resta da temporada.

Alonso, o encantador de cavalos

Num carro que não lhe oferece as melhores condições de trabalho, Alonso tem provado ser um piloto de topo, e são sobretudo os seus desempenhos que neste momento colocam a Ferrari em 3º no campeonato de construtiores. As prestações do espanhol em algumas das últimas corridas, como Silverstone, onde esteve agressivo nas ultrapassagens e protagonizou uma fantástica luta com Vettel pelo 5º lugar, em que usou de todas as suas armas, fechando sucessivamente o tetra-campeão mundial e chegando a estar roda com roda com o alemão têm enchido o olho aos amantes da modalidade, ficando apenas a frustração por não ver a Ferrari oferecer ao seu piloto um monolugar mais competitivo. 

Até ao momento, Alonso não desistiu de qualquer GP em 2014 e, mais do que isso, terminou todas as corridas dentro dos lugares pontuáveis, tendo subido ao terceiro degrau do pódio na China e ao segundo na Hungria, última prova antes da pausa de Verão.

7 anos depois, outro Kimi e outro carro

Já Kimi Räikkönen tem tido grandes dificuldades em conciliar o seu estilo de condução com as manias do F14 T. Embora só tenha sido forçado a abandonar em Silverstone, após um violento acidente em que se despistou contra um rail de protecção do traçado logo no início da corrida, a verdade é que o finlandês tem realizado Qualificações lentas e sido quase sempre avistada bem no meio do pelotão, comummente atrás dos Williams e dos Force India. Os resultados espelham bem as dificuldades do finlandês em dominar um carro já de si lento e irregular, e os espectadores da F1 já por várias vezes testemunharam piões, despistes e saídas largas de Kimi durante esta época. Uma desilusão no regresso do finlandês à scuderia, e logo ele, que foi o último piloto a vencer um título pela Ferrari, em 2007.

Monolugar acidentado de Kimi, após colisão nos testes de pré-época no Bahrain (Foto: Sutton Images).

O que pode ainda esperar a Ferrari de 2014?

Numa altura em que os homens de Maranello são os primeiros a admitir o fracasso anunciado de 2014, e sabendo-se que todos os seus esforços se dirigem já ao desenvolvimento da unidade motriz de 2015, o que resta da temporada poderá ser penoso para Räikkönen e Alonso, que mais não deverão almejar do que levar a Ferrari a um lugar que permita suavizar os danos de imagem que a ausência de triunfos e a sua dissolução no meio do pelotão pode produzir.

Luca di Montezemolo, presidente da marca italiana, tem sido presença próxima da equipa no terreno, e já por várias vezes veio a público exigir aos seus homens que devolvam a Ferrari às vitórias a que habituou os seus adeptos e que garantem o seu estatuto de referência no desporto automóvel. 2014 será, de agora em diante e sobretudo, de controlo de danos, e pouco deveremos ver a Ferrari investir no F14 T para o reminiscente da temporada. Prova disso poderá ser a mais recente solução dos homens de Maranello para tornar mais eficaz a sua unidade motriz: uma tinta especial que deverá dotar a turbina do motor de mais elevadas temperaturas, esperando-se um aumento de até 20cv de potência.

De momento, Alonso é o melhor Ferrari no campeonato, em 4º lugar (115 pontos). Kimi é apenas 12º (27 pontos), e a Ferrari, com um total de 142 pontos, é a 3ª dos construtores, a uns distantes 251 pontos da líder Mercedes.

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