Enzo como 6? Muito pontualmente...
Foto: Sapo Desporto

No seguimento do que tem sido utilizado como Jorge Jesus como mais um recurso para a equipa do Benfica, a utilização de Enzo Pérez como médio mais defensivo, tem pairado a questão que aponta se será prejudicial ou benéfica nova adaptação do craque argentino que sempre pareceu dar-se bem com essas situações.

Bastará recordar que Enzo chegou ao Benfica rotulado de médio-ala direito, lugar para o qual demonstrava algumas qualidades mas também algumas pechas como a falta de velocidade de ponta e problemas para ganhar a linha como normalmente se pede a um extremo; no entanto, sempre foi reconhecida a técnica individual, a visão de jogo e acima de tudo o espírito de luta e resistência que conduziram à sua passagem para o ‘miolo’.

Desta forma, e por iniciativa de Jorge Jesus, Enzo passou a conhecer-se como um polivalente que chegou mesmo durante um encontro dos encarnados, e por imperativos terceiros, a funcionar enquanto lateral direito.

Mais do que isso, tornou-se um médio centro não só capaz de cumprir nas posições 8 e até 10 - passou a ser um dos grandes centrocampistas do futebol internacional, brilhando a grande altura na última edição da Liga Europa, prova que apenas não conquistou face a uma infeliz final resolvida com um desempate por grandes penalidades e uma ’maldição’ que continua a afectar as águias em finais europeias.

Esse ‘novo Enzo’ passou a ser um habitual titular da selecção da Argentina, pela qual disputou mesmo a final do último Mundial face à Alemanha, conquistando com mérito a atenção da imprensa nacional e internacional que há muito especula a sua saída do clube.

Serão as condicionantes a ditar se Enzo evoluirá como 6 com regularidade

Adaptação não é, de facto, problema para um ‘monstro táctico’ como Enzo, um dos melhores médios a actuar em Portugal e o tipo de jogador que agrada sobremaneira a Jesus, que nos últimos encontros lhe colocou um desafio suplementar que passa por uma nova posição, novo recuo, desta feita para a posição 6.

Nas oportunidades que tem tido nesse posto até agora, o craque benfiquista vem provando ser capaz de desempenhar essa função com méritos quando o fez num encontro de grau de exigência máximo como a recepção ao Mónaco pela Liga dos Campeões.

No período em que recuou no terreno ante os monegascos, o argentino foi batalhando a pulso com jogadores com o gabarito de João Moutinho, conseguindo ganhar boa parte dos duelos. Prova isto que o melhor Enzo poderá surgir como médio mais defensivo? Muito dificilmente, mas de qualquer forma será uma excelente opção para o fazer em termos pontuais, dependendo das situações a que o Benfica esteja sujeito.

Primeiro ponto a reter: será impossível pedir a Enzo Pérez que actue como uma referência a meio-campo, um ‘farol‘ como o era Fernando no FC Porto, agora Casemiro, ou William Carvalho no Sporting, pois não possui características para tal; no entanto, em encontros nos quais o Benfica detenha um domínio constante, poderá mesmo jogar em solitário na posição, surgindo em apoio aos quatro/cinco homens mais adiantados em relação ao seu posicionamento.

O desafio nesse caso será obrigar Enzo a tarefas defensivas recorrentes cujo sucesso dependerá do entendimento que tiver com o quarteto recuado, até porque na sua grande maioria os extremos que compõem o plantel não revelam apetência para ajudar a defender o seu flanco. Todavia, bem entrosada, esta estratégia arrojada dos encarnados possui ‘pernas para andar’ em situações específicas.

Conseguindo tornar-se um ‘todo-o-terreno’ ainda mais global do que já conseguiu ser, Enzo verá ao mesmo tempo aumentar a sua importância na sua selecção, que também não possui qualquer ‘trinco’ de reconhecida qualidade no momento e poderia passar a ter em Enzo mais uma opção, possivelmente num meio-campo dinâmico liderado pelo benfiquista e por Angel Di Maria.

(Foto:Julian Finney/Getty Images)

No entanto, não se prevê que essa seja uma solução para durar

Resumindo, as constantes metamorfoses de Enzo contribuiriam directamente para o sucesso desportivo da sua nação e no seu clube em simultâneo. No que à Luz diz respeito, o médio poderá projectar o seu futebol como 6, mas preferencialmente em duplo pivot, o que irá requerer uma maior maturação táctica a Anderson Talisca, o elemento em melhor condição neste momento para o acompanhar em dupla no meio.

Contudo, apostar em Enzo como médio mais defensivo nunca deixará de constituir um risco dado que o espírito de sacrifício que o reconhece não suplanta o facto de não ser, nem nunca será, um futebolista de cariz defensivo e como tal não estará completamente confortável nesse tipo de tarefas, o que constitui um perigo adicional caso o Benfica seja confrontado com equipas de dimensão semelhante ou superior.

Denotou-se um esforço extremo perante o Monaco, por exemplo, e um esforço ligeiramente menor de Enzo poderia ter deitado tudo por terra. De qualquer forma, não se prevê que esta recolocação do centrocampista sul-americano seja um caso duradouro até porque a dinâmica do futebol do Benfica depende da presença de um 6 que assemelhe a Nemanja Matic, acompanhado por Enzo, sim… mas como 8.

Retirar Enzo Pérez do seu espaço natural torna o Benfica mais previsível e fácil de anular pelos adversários. Como tal, o projecto inicial de Jorge Jesus não passa por aí, mas sim por ambientar Andreas Samaris a esse lugar, ainda que atendendo às características físicas e técnicas até seja Bryan Cristante o mais habilitado face ao extraordinário passe longo que possui e a cultura na entrega.

No entanto, o italiano ainda carece de intensidade de jogo, e por essa razão vem sendo utilizado de forma tão irregular. Em suma: embora Enzo seja uma opção para tornar o 6 encarnado mais predisposto a atacar, a melhor opção no momento dá mesmo pelo nome de Samaris, sempre com o argentino pronto a auxiliar e assumir a transição como ‘box to box’, o lugar que melhor lhe assenta.

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