Visitar Alvalade como líder e lá jogar como lanterna vermelha

Visitar Alvalade como líder e lá jogar como lanterna vermelha

O Benfica visitou ontem Alvalade e realizou uma exibição deprimente, sem pejo de atitude ofensiva nem brio táctico. O golo de Jardel disfarçou a derrota que se adivinhava e mascarou a fraca prestação encarnada, dando-lhe um falso ar de pragmatismo.

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O título desta crónica é elucidativo da ideia que aqui se pretende explanar: no histórico «derby» Sporting x Benfica, os olhos dos adeptos, analistas, jornalistas e agentes desportivos viram uma partida fraca em termos de emoção - só a partir do minuto 87 os corações bateram mais depressa. Tudo espremido, apenas seis minutos de excitação e uma avassaladora cautela de parte a parte, que acabou por esterilizar o confronto.

O «Derby» dos cautelosos 

Duas equipas amarradas aos seus medos tácticos, jogando no corpo-a-corpo do meio-campo, sem espaços para desenvolver jogadas nem brio para arriscar sortes nem estomâgo para digerir possíveis azares. Mas, quem não arrisca nunca petisca e os momentos inesquecíveis fazem-se de corajosos intérpretes: mas nem Jorge Jesus nem Marco Silva quiseram arriscar. O Benfica jogou, declaradamente, para empatar, e o Sporting, obrigado a vencer, pouco se aventurou.

Jogando estrategicamente com os 7 pontos de avanço sobre o leão, o Benfica entrou em campo apostado em explorar a maior sede de golo da formação da casa; Salvio e Ola John seriam as setas dos corredores laterais prontas a capitalizar os espaços deixados pela estrutura do Sporting. Mas a verdade é que, sem condutor de jogo, o Benfica resumiu-se às tarefas defensivas e quando quis desembaraçar-se da teia leonina, não foi capaz.

Inclusão de André Almeida: um pau de dois bicos

André Almeida deu clara consistência ao sector defensivo do Benfica (suas dobras e compensações foram essenciais) mas a sua inclusão foi um pau de dois bicos, já que, com Almeida mas sem Talisca, os encarnados perderam qualquer capacidade de transitar com a bola controlada e elaborar posse de bola com intuito de atacar com critério e ritmo certo. Com um deserto entre os medios defensivos e os avançados, seria de esperar que os extremos pegassem nas rédes do jogo...

...mas tal não aconteceu; Salvio e Ola John foram totalmente anulados pelas atenções cautelosas da defesa do Sporting. Os dois extremos do Benfica nunca foram capazes de baralhar as marcações leoninas - Ola John realizou um péssimo jogo e Salvio, sem apoios, foi autêntica nulidade. Por tudo isto, Jonas e Lima ficaram arredados do duelo, cingindo-se ambos a tarefas de combate individual e ajudas defensivas importantes.

Jardel mascarou de pragmatismo o medo encarnado

O golo de Jardel, que anulou o tento de Jefferson, caiu do céu e apenas mascarou de pragmatismo uma exibição que se pautou pela inércia ofensiva, pela resignação arriscada do empate e por momentos de anti-jogo indisfarçáveis. Em 94 minutos, o Benfica apresentou dados exibicionais típicos de uma equipa lanterna vermelha: primeiro canto ganho aos 80 minutos! e um único remate enquadrado com a baliza, aos 93! - Inacreditável? Parece mas não é...

O Sporting também não fez jus à sede irreverente e ambiciosa que parecia ter engarrafada antes da partida: o contexto de uma grande recuperação pontual poderia estar à mercê de uma equipa inteligente e brilhante, mas o jogo esteve longe de ter corrido de feição aos Leões. A entrada na partida foi positiva, o controlo da bola foi uma constante mas o ímpeto ofensivo leonino nunca foi esclarecido - Marco Silva arriscou tarde e deixou a sensação de nunca ter empurrado as tropas para a baliza de um Artur nervoso mas esforçado.

O golo do Sporting, baseado num erro de Samaris, desbloqueou o jogo, mas o Benfica teve também o seu momento de sorte, aos 93 minutos. A grande diferença residiu na atitude táctica e na eficácia: o Benfica não jogou para vencer e, durante a partida, nunca mostrou pejo de brio ofensivo nem vontade de marcar. Mas bastou-lhe um remate à baliza para festejar um golo.

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