Boicote dos jogadores da NBA comprova elo intrínseco entre esporte, política e povo
Foto: Divulgação/NBA

Quando George Floyd foi asfixiado pelo joelho de um policial militar em seu pescoço por minutos e perdeu a vida no último mês de maio, protestos em todo o mundo chamaram a atenção das pessoas para um problema que não perdeu força e ganha ares mais explícitos com o advento das novas tecnologias: o racismo, a discriminação pela cor da pele, pela origem própria e de seus ancestrais, a aversão pelo gênero e por inúmeros outros aspectos estão completamente em voga. Atitudes imediatas e a médio prazo foram anunciadas e tomadas, mas pouca coisa mudou.

No último fim de semana, Jacob Blake foi atingido com sete tiros dados à queima-roupa por um policial militar, pelas costas e na frente de três filhos, sem razão nem por quê. Teoricamente. Subjetivamente, a justificativa pelos tiros dados é a cor da pele. Blake, negro, vítima da violência racial escancarada. Blake foi apartar uma discussão entre duas mulheres, está no hospital e dificilmente poderá voltar a andar.

Com mais um caso de desconsideração à humanidade, onde qualquer atitude dessas é injustificável (seja policial ou não), a mobilização nos Estados Unidos novamente voltou à tona. Esportistas usam seu poder de alcance para expor suas opiniões e mobilizar a sociedade para um grave problema que surgiu há muitos séculos e perpetua por incontáveis gerações. A nobre atitude dos jogadores do Milwaukee Bucks, time situado no estado onde Jacob Blake reside, que decidiu não entrar em quadra para encarar o Orlando Magic, pelo quinto jogo da primeira rodada dos playoffs da NBA. O Magic aceitou prontamente a decisão e se juntou aos Bucks. Não apenas os dois times. Por atitudes sérias de jogadores importantes da liga, como LeBron James, todos os três jogos marcados para a noite desta quarta-feira (26) não irão acontecer.

“A NBA (National Basketball Association) e a NBPA (Associação dos Atletas Profissionais de Basquete) anunciaram há pouco, nesta quarta-feira, dia 26 que, a partir da decisão do Milwaukee Bucks de não entrar em quadra para o jogo 5 contra o Orlando Magic, as três partidas programadas da rodada dos Playoffs da NBA 2019-2020 (Houston Rockets x Oklahoma City Thunder e Los Angeles Lakers x Portland Trail Blazers) foram adiadas. Todos os jogos 5 dessas séries serão remarcados”, informou comunicado oficial da liga de basquete norte-americano.

Todos os atletas que estão nos complexos esportivos da Disney para a disputa da reta final da temporada 2019-2020 da NBA, já atrasada por conta da paralisação causada pela pandemia do novo coronavírus, irão se reunir para definir quais as próximas atitudes a serem tomadas. Informações oriundas dos Estados Unidos de jornalistas especializados dizem que a temporada está em perigo, com o risco de os atletas saírem para protestar e ampliar as mobilizações.

Não apenas o basquete. O Milwaukee Brewers, da MLB (liga de baseball), disse que não irá entrar em campo para enfrentar o Cincinnati Reds. Outras equipes também sinalizam com boicote de jogos nesta noite. Mas o que tudo isso traz de consequência? Simples. Nunca houve espaço, mas está inconcebível visualizar pessoas que enfrentam a todo o instante atitudes que trazem dor, vitupério, constrangimento, desonra e morte. Está insuportável ler, ouvir e ver relatos de miséria e de que existem pessoas (podem ser chamadas disso?) que sentem prazer na desgraça.

Enquanto declarações colocam as mulheres, pretos e pretas, homossexuais, transexuais, pobres e inúmeras outras condições ao nível da estupidez continuarem a existir e ter simpatizantes, o combate firme deve existir. Já bateram tanto nessas classes que não existe anestesia, a resposta é o contra-ataque. Sem violência, mas com atitudes que mostrem a valorização de todos as pessoas, independentemente de suas condições.

A atitude dos atletas de basquetebol, com apoio de outras modalidades em todo o mundo, podem ser o início de um despertar tardio para acabar com segregações vexatórias e inexplicáveis. O esporte não pode ser considerado ópio do povo, mas a união na luta por um objetivo. Enquanto a deficiência intelectual e o egoísmo de quem tem o poder para mobilizar as pessoas no Brasil ainda preponderam, o mundo reage. O esporte não é diversão, nem entretenimento. É a exibição da igualdade, que precisa urgentemente ser posta em prática à vera. Todo o respeito, admiração e elogios à coragem desses atletas. Que a atitude seja coletiva e de grandes proporções.

Parem o mundo que a igualdade precisa vencer.

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