Uma previsão contra as previsões, ou como encarar o Benfica x Porto

Uma análise muito pessoal ao percurso desportivo e emocional dos dois grandes candidatos ao título 2016/2017, na antecâmara do clássico Benfica x Porto da próxima jornada.

Uma previsão contra as previsões, ou como encarar o Benfica x Porto
Uma previsão contra as previsões, ou como encarar o Benfica x Porto

Sete pontos perdidos em 2017 tornaram o Benfica bem mais instável que a equipa que, outrora, liderava a Liga nacional com relativa tranquilidade: à entrada para o novo ano, as Águias contavam seis pontos de avanço sobre o rival FC Porto, saíam do temível castelo vimaranense com duas vitórias (uma delas para a Taça da Liga) e a concorrência directa pensava - ainda que nem confessando às paredes - que o destino do campeonato 2016/2017 poderia apenas não dar em 'tetra' caso um declínio progressivo do líder se verificasse.

A título pessoal, esta penso ter sido, à data, a perspectiva mais generalizada entre os rivais (e seus respectivos adeptos) e também entre o timoneiro da Liga Benfica (e seus aficionados). Juízo precipitado? Concedo que sim: a pura matemática ordena prudência, o imprevisto é um olhar voyeurista sobre a lógica do provável e a produtividade de um ser humano (quanto mais de um colectivo) depende de intermináveis factores. Portanto, a Liga estava, ao chegarmos a Janeiro, longe do determinismo que elucubrei à data.

Mas a verdade - agora em defesa do meu julgamento - é que delineava eu, no arranque de 2017, uma visão, não apoiada no jogo de probabilidades da matemática ou na reserva ao direito do imprevisto, mas sim suportada pelo prisma analítico que considero mais descodificador: as correntes psíquicas que definem o contexto emocional dos competidores, ao longo da época. Quando a disputa se resume a candidatos equilibrados, é meu parecer que a configuração psíquica é o factor que mais desempata a contenda, em qualquer fragmento temporal.

Assim, vi o Benfica entrar em 2017 com toda a pujança desportiva e, claro, no topo dos seus níveis emocionais - liderança relativamente confortável face a um FC Porto hesitante, fuga total face a um Sporting prematuramente dissipado, na ressaca, triunfante, de dois sucessivos assaltos ao Castelo (sem sequer conceder um único golo) e com a fase de grupos da UEFA Liga dos Campeões (bem) resolvida. Daí ter assumido que a Liga, ainda que distante da sua resolução, estaria extremamente bem encaminhada para o Benfica. Só um fracasso prolongado poderia reequilibrar a balança.

Seria expectável que, no espaço de três jornadas (teoricamente de nível médio-baixo de dificuldade) o Benfica desperdiçasse cinco pontos? Rotundamente não. E, para me ajudar, os feitos realizados pelos oponentes que abateram as Águias em Janeiro foram, de facto, históricos, e significativamente improváveis: os boavisteiros marcaram três golos na Luz (quem imaginaria?) em menos de 20 minutos e o Vitória FC batia a turma encarnada por 1-0, quebrando um jejum de vitórias na Liga que durava desde 1999. O fracasso ganhava momento linear.

O lapso na Luz, diante do Boavista, não foi corrigido prontamente, e, notou-se, o campeão em título engasgou-se na sua própria incredulidade. Duas semanas depois, o Benfica voltava a sucumbir, agora com maior estrondo, no Bonfim - num jogo onde quase não compareceu em campo, as Águias foram manietadas por um Vitória FC astuto. Cinco pontos se esfumaram e com eles voou também a estabilidade emocional, a intrépida confiança e a margem de erro, sinónimo de conforto. O Porto, ao contrário, alimentava-se psiquicamente desses desaires, como se a auto-estima se pudesse mastigar e engolir.

Surpreendi-me com a progressiva perda de carácter da equipa do Benfica, que ora parecia cansado e abatido, ora parecia apenas estar a desnudar, perante o perseguidor Porto, as suas crónicas debilidades (principalmente tácticas, na minha opinião), tão bem disfarçadas durante a primeira metade do campeonato. As inversões de forma de Benfica e Porto encetaram novo pensamento em todos nós: a Liga seria jogada taco-a-taco. Será sim, e penso ser esta a verdade mais inabalável que, por agora, poderemos validar. No arranque de Janeiro diria que não, mas o Benfica falhou, e falhou o suficiente.

Enquanto o Benfica falhava o suficiente, o Porto ganhava o suficiente, e dessa intersecção nasceu em mim nova tendência analítica, sustentada não só na perícia técnica das actuações, como na corrente psíquica que se formava no reino do Dragão: o Porto ganhava consistentemente em 2017, sem dar tréguas, fazendo da sua solidez defensiva o ponto de partida para um futebol atacante que, outrora apenas fantasma, encontrava em Soares o corpo que faltava para materializar o sucesso das jogadas. Soares chegou e marcou, e marcou, e pelo caminho consolidou-se como real reforço de Inverno.

O Porto é o competidor mais apto a cortar a meta em primeiro lugar - pensei em Fevereiro. E em Março. Goleador, somando 'clean sheets' e mantendo apenas aquele pontinho que dura o compasso do diabo esfregar um olho, o Porto fazia as curvas - jornadas - ciente de que poderia escolher a melhor trajectória para dobrar o Benfica. E essa abertura chegou no passado Sábado, com o nulo encarnado na Mata Real. Acertei, pensei eu. E, elucubrando, fui mais longe: este deslize permitirá ao Porto uma ultrapassagem carregada de simbolismo, mesmo antes do clássico, um tónico inigualável para os Dragões, que, na minha bola de cristal, já tinham meio caminho andado para não serem derrotados na Luz.

Porquê? Pela avalanche de motivação que o cirúrgico empate do Benfica lhes providenciava. Na melhor das alturas, na mais estratégica das curvas, o líder abanava, abrandava, e o perseguidor via, pela primeira vez, a presa tal como ela era: um alvo prestes a abater. O Porto entraria no Dragão, perante os seus, aureolado pela coroa que se adivinhava - a de novo líder; pela primeira vez líder em 2016/2017. Tal como o Benfica da época transacta, chegar ao topo, ver, vencer e não mais ceder. Mas a minha teoria de sustentação psicológica não vingou, contra todas as expectativas.

Em casa, o Porto provou o veneno sadino e gerou um gigantesco anti-clímax que contrariou todas as previsões (quer técnicas, quer motivacionais). Desperdiçou a ideal trajectória, e, para agravar o seu próprio cenário, reforçou animicamente o rival, que poderia, após perder finalmente a liderança, entrar numa espiral de perda de confiança e de pressão desportiva. No fundo, o Porto amparou um Benfica que, adivinhava eu (agora nunca saberemos), se havia jogado do precipício. A Águia acabará por receber o rival em aparente ascendente psicológico, já que o tropeção caseiro do Dragão abriu a mente às interrogações:

Estaremos realmente preparados para a liderança? Ter-nos-á faltado o estofo de campeão para, na primeira chance, assumir o comando da Liga? Se a isto adicionarmos o contexto global desportivo, de um Porto pressionado pela imperial necessidade de triunfo nacional e um Benfica consolidado e tranquilo (tricampeão), poderemos nos inclinar para um favoritismo encarnado, não só no vindouro clássico mas também na consagração final. Mas, como analista, sinto-me impotente para prever: também o Porto teve o ascendente emocional e desbaratou-o, triplicando a desmoralização. 

Neste autêntico carrossel que é o futebol, o raciocínio lógico e dedutivo nunca deve descurar as infinitesimais variações que resultam do acaso. A bola no poste que sai, a bola no poste que gira caprichosamente e entra; o tropeção que atrapalha, o ressalto que engana, o dia mau do craque Fulano ou a única noite de glória da carreira do anónimo Beltrano. Porque o jogo é feito de pessoas, nas suas múltiplas circunstâncias contextuais. É por isso que, em extrema análise, a previsão é o mais inapto e vazio exercício intelectual que podemos fazer.

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