Cruzeiro 100 anos: como erros de planejamento fizeram o clube permanecer na Série B
(Foto: Cruzeiro EC/Divulgação)

Nem mesmo os mais pessimistas torcedores do Cruzeiro imaginaram, um dia, o que está pra ocorrer neste ano de 2021. No ano do centenário, o clube passará mais uma temporada na Série B do Campeonato Brasileiro. Embora falte ainda cinco rodadas para o fim da competição, os matemáticos praticamente já descartam as probabilidades de acesso. Neste especial, iremos abordar como os erros de planejamento contribuíram para a má campanha na segundona.

A Raposa iniciou a temporada 2020 com o técnico Adilson Batista, que permaneceu no comando mesmo após o rebaixamento no Brasileirão de 2019. No aniversário de 99 anos, foi formado um Conselho Gestor para administrar o clube até as eleições presidenciais, após a renúncia do investigado e ex-presidente, Wagner Pires de Sá.

Um dos grandes fatores para o insucesso de uma equipe, é a instabilidade. Seja fora ou dentro de campo. E isso era tudo o que o Cruzeiro deveria contornar ao máximo. Em meios a resultados ruins e um futebol ruim, o Cruzeiro sofria com diversas saídas conturbadas de funcionários - pessoas que tinham histórias ou uma certa identificação com o clube.

(Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)
(Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

Não bastasse isso, o Conselho Gestor precisava enfrentar várias ações na Justiça, movidas por ex-funcionários e clubes cobrando dívidas antigas. No futebol, o primeiro baque veio em março, com a demissão do técnico Adilson Batista. Na saída, ele fez duríssimas críticas à direção e ex-jogadores.

Para o posto vago de treinador, foi escolhido o nome de Enderson Moreira, que estava no Ceará – ele possui um título da Copa São Paulo de Juniores (2007) conquistado com a Raposa. No entanto, o técnico só foi realmente ministrar sua filosofia de trabalho no final de maio, por conta de os clubes terem paralisado as atividades em março em virtude da vigente pandemia do novo coronavírus.

Ainda em maio, foi eleito o atual presidente do clube, Sérgio Santos Rodrigues, para enfrentar a maior crise institucional e financeira do clube. Naquela época, o Cruzeiro ainda foi condenado pela Fifa com a perda de 6 de pontos na Série B pelo não pagamento de aproximadamente R$ 5 milhões por empréstimo do volante Denilson, junto ao Al Wahda.

No retorno do Campeonato Mineiro, no final de julho, a Raposa chegou a vencer os dois últimos jogos do Estadual, mas não conseguiu se classificar para os confrontos mata-mata. Já em agosto, teve o início da Série B, onde o clube entrou com uma pontuação negativa de -6. O time celeste até começou bem a competição, mas foi oscilando e perdeu pontos em jogos essenciais. Na Copa do Brasil, foi eliminado na terceira fase, pelo CRB-AL.

Para piorar a situação, em setembro, o Cruzeiro foi punido pela Fifa, em ação movida pelo Zorya, da Ucrânia. Como penalidade, não era mais possível registrar novos atletas para reforçar o elenco recheado de jogadores jovens e inexperientes. Portanto, o que já estava complicado, piorou. E, como consequência, Enderson Moreira foi demitido no início do mês após seis jogos sem vitórias. Assim como Adilson Batista, Enderson também fez críticas sobre as políticas internas do clube celeste, na sua saída.

(Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)
(Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)

Sem perder muito tempo, o presidente trouxe outro velho conhecido na Raposa: Ney Franco – já havia trabalhado como interino no clube. Entretanto, ele durou somente um mês na beira dos gramados. A campanha do Cruzeiro foi ainda pior e os torcedores chegaram a temer um possível rebaixamento. O time estava na 19ª posição, com 13 pontos e há várias rodadas no Z-4.

Na missão de buscar mais um treinador, a Raposa levou o “não” de vários profissionais, até acertar com o multicampeão Luiz Felipe Scolari – que também possui história na agremiação celeste. Quarto treinador na temporada e atualmente no cargo. Com ele, o clube chegou a fazer uma sequência positiva na Série B e a torcida até namorou uma possibilidade de G-4.

Contudo, a conta novamente chegou e ocorreu novas oscilações no campeonato. Embora tenha conseguido superar a punição da Fifa e conseguir registrar novos jogadores como Rafael Sóbis e Giovanni, o elenco do Cruzeiro ainda era mediano e com bastante atletas inexperientes para uma missão complicadíssima.

No final de novembro houve outra péssima notícia: o clube foi novamente impedido de registrar atletas por condenação na  Câmara Nacional de Resoluções e Disputas (CNRD) envolvendo o zagueiro Bruno Viana.

Essa questão foi salientada por Felipão após o empate com o Cuiabá, que praticamente zerou as chances de retornar à elite: “Não pode ter 12 juniores não, de jeito nenhum”, disse o comandante sobre o elenco que tinha em mãos.

No entanto, Scolari reforçou que assumiu com o objetivo de livrar o clube de cair para a Série C. Atualmente, o Cruzeiro não vence há quatro jogos, figura o 11º lugar e somando 41 pontos - sendo seis de diferença para o primeiro time da zona de rebaixamento e oito para o G-4. De acordo com os matemáticos, cerca de mais quatro pontos deve eliminar totalmente as chances de queda.

(Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)
(Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro)

De fato, o time celeste teve, em 2020, todos os elementos para o insucesso: quatro treinadores, diversos processos e punições impostas pela Fifa. O teto salarial é de R$ 150 mil, incomum para uma agremiação do tamanho do Cruzeiro.

Nem mesmo a permanência dos ídolos Fábio, Léo, Henrique e Marcelo Moreno, que deixou a China para atuar pelo clube, foram suficientes para o acesso. Era preciso muito mais.

Atletas da base, jovens, inexperientes, impossibilidades de contratação e pouco recurso financeiro contribuíram para o fatídico ano do Cruzeiro, que, conforme já anunciado no início desta reportagem, nem o mais pessimista torcedor poderia imaginar tal situação.

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