De Fritz Walter à Beckenbauer: ideal da eficiência alemã durante a reconstrução de uma nação
Fritz Walter, Franz Beckenbauer e a Queda do Muro de Berlim (Arte: Rafael Mateus/VAVEL Brasil)

De Fritz Walter à Beckenbauer: ideal da eficiência alemã durante a reconstrução de uma nação

Destruída após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha conseguiu superar todas as adversidades a partir da eficiência aplicada em áreas como arte, tecnologia e futebol

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Rafael Mateus

Habitualmente, a eficiência é uma das características marcantes que é atribuída à Alemanha e seu povo. Ainda que se deva ter cuidado com qualquer tipo de generalização, sem dúvida houve muita eficiência – e trabalho – para a Alemanha estar hoje na condição em que se apresenta. Arrasada após as duas guerras mundiais e literalmente divida entre 1949 e 1990; a Alemanha superou todas as adversidades ocorridas no século passado. Atualmente, é reconhecida como um dos países mais desenvolvidos: quarta maior economia do mundo com um elevadíssimo padrão de vida e uma qualidade invejável no que se refere a temas como a seguridade social e mobilidade urbana. Assim como em outras atividades humanas, com eficiência e talento, o futebol alemão celebrou importantes conquistas contra equipes que eram favoritas. Tais conquistas contribuiriam para a reconstrução da nação alemã durante o século XX.

Estação de Metrô de Westfriedhof, em Munique: eficiência alemã na mobilidade urbana (Foto: Guido Wörlein)

Durante a década de 1920, uma grave crise econômica afligia a Alemanha. Nesse âmbito, boa parte dos problemas advinha do fato de que, recém terminada a Primeira Guerra Mundial, os alemães tinham que lidar com as duras condições impostas pelo Tratado de Versalhes. Além de inestimável perda de vidas humanas, a Alemanha viu parte de seu território expropriada, teve que restringir o tamanho de seu exército e pagar enorme multa devido às perdas causadas pela guerra. Entre o povo alemão, o Tratado era visto como um duro golpe, e foi um dos principais argumentos que seriam utilizados pelos nazistas contra a República de Weimar, que foi instaurada após o fim do conflito. Apesar dessa situação, outros setores da sociedade apresentavam toda a capacidade e talento ainda presentes na Alemanha.

Mesmo com todas as dificuldades desse período, arte e cultura eram responsáveis por mostrar toda a vanguarda e desenvolvimento que ainda permaneciam em território alemão. Em Weimar, Walter Gropius fundaria uma instituição com o intuito de reformular a formação em artes. Inovadora, essa instituição preconizava mesclar a concepção artística com a produção industrial, o que auxiliaria na solidificação do Movimento Moderno nas Artes Visuais, Design e Arquitetura: era a Bauhaus. Ao unir arte e tecnologia, o ensino dos ofícios na Bauhaus pretendia preparar a inserção eficiente do design na produção em série industrial. Era o ideal da eficiência da máquina transmitida para a criação artística. Além de Gropius, expoentes como Mies van der Rohe, Marcel Breuer, Wassily Kandinsky, Paul Klee e Herbert Bayer, tornariam a Bauhaus a mais influente escola de desenho da primeira metade do século XX. Longe da efervescência política e cultural de Weimar, nascia em Kaiserslautern uma lenda da história do futebol alemão: Fritz Walter.

Cadeira Wassily, projetada por Marcel Breuer: integração entre design e produção industrial (Foto: Knoll/site oficial)

Sede da Bauhaus em Dessau (1925-26), projeto arquitetônico de Walter Gropius (Foto: Claudio Divizia)

Tipografia da Bauhaus, criada por Herbert Bayer: ainda nos dias atuais, uma importante referência para fontes (Imagem: bauhaus-archiv museum)

Nascido em 1920, sendo o mais velho de cinco irmãos, Fritz Walter desde cedo mostrou sua capacidade para a prática do futebol. Com apenas sete anos já apresentava suas habilidades em campo, no time de juniores do Kaiserslautern. No começo, o jovem Fritz Walter jogava na posição de lateral direito, contudo devido ao talento excepcional que demonstrava foi para o ataque. Aos 17 anos, começou a se dedicar quase que exclusivamente ao futebol. Com uma autorização especial, devido à sua idade, rapidamente se tornou a estrela da equipe. A qualidade de seu jogo encantava a todos. Técnico e eficiente, Fritz Walter defendia, articulava jogadas e marcava gols. Arte e eficiência nos campos, Fritz Walter era para o futebol o que Bauhaus estava sendo para o design. Tudo mudaria com o início da década 1940, não só para Fritz Walter, mas para todos os alemães.

Fritz Walter, aos 18 anos de idade (Foto: Fritz Walter Museum)

A grande crise de 1929, com a Quebra da Bolsa de Nova Iorque, atingiu de forma dramática a economia alemã. Cerca de 5 milhões de pessoas ficaram sem emprego e o apoio ao governo presidido por Paul von Hindenburg era cada vez mais escasso. Com a ascensão de Adolf Hitler ao poder em 1933, a República de Weimar acaba. Ao longo da década de 1930, o regime nazista estabelece um governo totalitário em que partidos são extintos. Diferentes grupos étnicosjudeus, ciganos, polacos – e políticos são perseguidos e levados aos campos de concentração. Instituições que contavam com essas pessoas, ou que se mostravam críticas e independentes, eram consideradas subversivas e foram extintas pelo governo de Hitler. Foi o caso da Bauhaus, que foi fechada pelo regime em 1933.

Grupo de judeus sendo levados ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau (Foto: Zentralbild)

No futebol, inúmeros jogadores foram privados dos melhores anos de suas carreiras e obrigados a se integrar ao exército alemão. Mesmo tendo alguns privilégios, por ser jogador da seleção comandada por Sepp Herberger, Fritz Walter foi obrigado a se alistar em 1940. Em meio ao conflito, não deixou seu apreço pelo futebol se apagar. Em 1943, durante o período como soldado na cidade francesa de Thionville, na região de Lorena, Fritz Walter jogou pelo Thionville FC. Posteriormente, teve também uma breve passagem pelo AS Sarreguemines. Serviu como soldado também na Sardenha, Córsega e Elba, até ser detido no final da Segunda Guerra Mundial.

Fritz Walter, na época em que era soldado, em 1944 (Foto: Schwabenakademie/reprodução)

De um talento dos gramados, Fritz Walter se tornou um preso dos soviéticos. No campo de prisioneiros em Máramarossziget, na Romênia, contraiu Malária, e ficou seriamente debilitado. Alguns relatos contam que foi reconhecido, enquanto jogava com outros prisioneiros. Mesmo com sua saúde prejudicada, o talento para o futebol identificava o craque. Foi apresentado ao comandante soviético do acampamento, Major Zhukov. O oficial soviético, profundo admirador do futebol, foi o responsável por liberar Fritz Walter, e também seu irmão Louis, de uma prisão na Sibéria. Em outubro de 1945, os dois irmãos voltaram para Kaiserslautern. O futebol salvou suas vidas.

Jogaria até final da década de 1950 pelo FC Kaiserslautern, encerrando a carreira quase aos 40 anos de idade. Nesse tempo, faria história no clube alemão com a marca expressiva de 327 gols em 384 partidas, sendo o principal destaque nos títulos nacionais de 1951 e 1953. Ao retornar da guerra, encontrou a Alemanha em ruínas. Não só edifícios, instituições e cidades estavam destruídas, o próprio país foi dividido geograficamente. Após a vitória dos Aliados, não havia mais uma Alemanha, ela foi dividida em dois estados independentes: a República Federal da Alemanha (Ocidental), que era capitalista e tinha a influência de Estados Unidos, Reino Unido e França, e a República Democrática Alemã (Oriental) controlada pela União Soviética e com regime socialista de governo.

Berlim destruída após o fim da Segunda Guerra Mundial (Foto: IWM)

Equipe do Kaiserslautern campeã do Campeonato Alemão em 1953. Fritz Walter está em pé, o segundo da esquerda para direita (Foto: Fußball archiv)

Desse país dividido e em ruínas, o técnico Sepp Herberger seria o responsável por comandar a seleção da Alemanha Ocidental. Os alemães foram readmitidos aos torneios internacionais organizados pela FIFA em 1950, pouco tempo depois do término da Copa do Mundo que houvera sido realizada no Brasil. Depois de estar ausente por sete anos, Fritz Walter não só foi convocado por Herberger, como também passou a ser o capitão da seleção em partida realizada em Zurique, no dia 15 abril de 1951, contra a Suíça. Começava nesse instante a reconstrução do futebol alemão.

Da esquerda para a direita: Kurt Müller, Fritz Walter e Sepp Herberger na concentração alemã em 1951 (Foto: Siebenbürgische Zeitung)

Havia uma confiança mútua entre Sepp Herberger e Fritz Walter. A confiança e respeito eram tamanhos que o jogador chamava seu treinador de “chefe”. Muito mais que um jogador, Fritz Walter representava um ideal de futebol em que Herberger acreditava. "Atacar e defender com máxima eficiência", essa era a crença do técnico alemão, e não havia jogador melhor para simbolizar isso que Fritz Walter. Da mesma forma que a Bauhaus desejava transferir a eficiência para a produção artística, Herberger e Fritz Walter fariam o mesmo para o futebol. Assim, dariam fundamento à reconstrução da seleção que representava um país que sofreu todas as agruras de ficar destruído após a Segunda Guerra Mundial. Herberger organizou um time que funcionaria a partir de seu principal jogador, Fritz Walter, ao lado de alguns de seus companheiros de Kaiserslautern: Werner Liebrich, Werner Kohlmeyer, Horst Eckel e Ottmar Walter, irmão mais novo de Fritz. Com esses pré-requisitos, a seleção da Alemanha Ocidental classificou-se com autoridade para a Copa de 1954, superando o Protetorado do Sarre – atualmente um estado alemão – e a Noruega.

Fritz Walter recebendo instruções de Sepp Herberger (Foto: picture-alliance/ dpa)

Na Copa do Mundo, a seleção alemã estava no Grupo 2, juntamente com Hungria, Turquia e Coréia do Sul. A estreia foi tranquila, com uma goleada por 4 a 1 contra a seleção turca. De forma pragmática, Sepp Herberger não escalou a maioria dos titulares contra a Hungria. Tinha em mente que era desnecessário colocar toda a força que dispunha contra os chamados Mágicos Magiares numa fase inicial da competição. A seleção húngara era treinada por Gusztáv Sebes e contava com jogadores como Zoltán Czibor, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti, József Bozsik, Gyula Grosics e, aquele que é considerado um dos maiores jogadores da história, Ferenc Puskás. Time húngaro que conseguiria a incrível marca de permanecer invicto por 32 jogos consecutivos. Por isso, Herberger escalou reservas e destinou o jogo da fase classificatória apenas para observar os pontos fortes do adversário, resguardando fisicamente sua equipe para as fases mais agudas da competição. O resultado não poderia ser diferente, 8 a 3 para a seleção de Ferenc Puskás, que aliás se contundiu nessa partida, e teve boa parte de sua atuação comprometida na copa.

O método adotado por Sepp Herberger se mostraria eficiente. Classificada em segundo lugar no grupo 2, apenas atrás da Hungria, a Alemanha não teve dificuldades de superar a Iugoslávia nas quartas de final (vitória por 2 a 0). Na semifinal, uma impressionante goleada de 6 a 1 contra a Áustria classificou a seleção da Alemanha para a final. Um novo confronto contra os húngaros que teria um final diferente. A equipe mais admirada e temida entre todas sofreria uma das derrotas mais inesperadas da história dos mundiais. A Hungria de Puskás, mesmo vencendo o jogo por 2 a 0 no início da partida, perdeu a final para os alemães por 3 a 2. É provável que o gol de Helmut Rahn, faltando seis minutos para o término da partida, tenha sido o mais importante da história do futebol alemão. Fritz Walter, ex-prisioneiro de guerra e capitão da seleção, entraria definitivamente para a história ao receber a Taça Jules Rimet. Era o Milagre de Berna.

Puskás cumprimenta Fritz Walter após a vitória alemã na final (Foto: dpa)

Jogadores e comissão técnica são recebidos por milhares de pessoas após a vitória na Copa de 1954 (Foto: dpa)

Entre todos os fatos que cercam aquela final da Copa do Mundo de 1954, um deles notabilizaria o conceito da eficiência alemã. Desde os tempos em que ainda jogava como atacante do VfR Mannheim, Sepp Herberger era amigo de um sapateiro que viria a se tornar um dos maiores empresários do ramo esportivo: Adolf "Adi" Dassler. A empresa de Dassler, a Adidas, era a responsável por fornecer os calçados à seleção alemã que disputaria a Copa de 1954. Tendo conhecimento da capacidade inventiva que possuía Dassler, Herberger pediu para seu amigo confeccionar chuteiras capazes de favorecer a movimentação dos jogadores em campo. Era uma ótima oportunidade para demonstrar a eficiência da indústria alemã, e provar que ela ainda estava intacta apesar de toda a destruição causada pelas duas grandes guerras.

As chuteiras eram leves e flexíveis e, além disso, as travas eram removíveis para que se adequassem as condições do gramado. O tempo chuvoso em que foi disputada a final deixou o gramado enlameado e escorregadio. Ao contrário dos húngaros, os alemães tinham chuteiras com travas duras e largas que favoreciam a estabilidade dos movimentos. Não era apenas uma vitória esportiva, era uma vitória da tecnologia e indústria. No mesmo período, a indústria automobilística alemã apresentava um dos ícones da eficiência nas pistas, um carro que entraria para o história da Fórmula 1, o Mercedes-Benz W 196 R, apelidado de "Flecha de Prata". Definitivamente, a Alemanha começava a ressurgir das cinzas da guerra, em todas as áreas da atividade humana.

Adi Dassler com as chuteiras utilizadas pela seleção alemã na Copa de 1954 (Foto: Adidas/site oficial)

Juan Manuel Fangio conduzindo a "Flecha de Prata" em Nürburgring, no ano de 1954 (Foto: Mercedes-Benz/site oficial)

Dessa forma, a autoestima alemã estava se restabelecendo, numa época em que demonstrações de amor ao país ainda eram vistas como um sinal perigoso de nacionalismo. Nesse contexto, a conquista da seleção capitaneada por Fritz Walter tem um valor inestimável para o futebol alemão. Desde então, de uma seleção mediana no contexto mundial, a Alemanha se converteu numa das protagonistas em todas as competições internacionais. Equipes alemãs passaram a disputar de igual para igual com outros times europeus – particularmente, ingleses, espanhóis e italianos – pelas conquistas em nível continental. Esse ambiente propício fez com que uma nova geração de brilhantes jogadores começasse a despontar a partir de meados da década de 1960. Entre os quais, teria destaque aquele que receberia o apelido de “Der Kaiser”, o imperador em alemão: Franz Beckenbauer.

Nascido em Munique, na Baviera, ainda muito jovem Beckenbauer começou a jogar futebol pelas categorias de base do SC 1906 Munique. Torcedor do Munique 1860 – então o maior clube da cidade e que vivia seu auge da década de 1960 – Beckenbauer não conseguiu uma vaga entre os jogadores no clube do coração. Mudou de planos ao receber uma proposta para integrar o time de juniores do outro clube da cidade, que na época possuía apenas um titulo do Campeonato Alemão, na longínqua temporada 1931-32. O clube era o Bayern de Munique. Não é errado dizer que ao lado de Sepp Maier – seu amigo de infância – Gerd Müller e Paul Breitner, Beckenbauer elevaria o Bayern à condição de Gigante da Baviera, algo inimaginável em meados da década de 1960.

Franz Beckenbauer, no início de sua carreira no Bayern de Munique (Foto: Imago Sportfotodienst)

A estreia na equipe principal do Bayern foi em 6 de Junho 1964, contra o FC St. Pauli. Beckenbauer tinha apenas 18 anos, e marcou um dos gols da vitória por 4 a 0. Desde cedo, impressionava por se mostrar um jogador completo. Era capaz de jogar na zaga, no meio de campo – como um dos responsáveis pela criação de jogadas no ataque – e até mesmo na lateral. Beckenbauer era hábil em impedir o desenvolvimento das jogadas adversárias e simultaneamente poderia contribuir para a criação no ataque de seu próprio time. Era a personificação da eficiência alemã nos campos de futebol. Seu potencial era tamanho, que aos 20 anos de idade conseguiu não ser apenas convocado para a Copa do Mundo de 1966, como também conseguiu uma vaga de titular na seleção que foi vice-campeã mundial. Foi um dos destaques do time que perderia a controversa final para a Inglaterra.

Beckenbauer em sua estreia contra o St. Pauli, em 1964 (Foto: picture-alliance/ dpa)

Beckenbauer e Bobby Charlton durante a final da Copa do mundo de 1966 (Foto: Getty)

Quatro anos depois, na Copa do Mundo do México, em 1970, foi mais uma vez um dos principais jogadores da Alemanha na competição. Mais do que técnica, na semifinal contra a Itália, Beckenbauer demonstraria um valor que impressionaria a todos. O jogo terminou empatado em 1 a 1 após o tempo regulamentar, e a classificação seria decidida na prorrogação. Num dos maiores jogos de todas as Copas do Mundo – para muitos o maior – o craque alemão fraturou a clavícula. A Alemanha já houvera feito todas as substituições regulamentares, por isso se Beckenbauer deixasse o campo, a Alemanha teria que terminar a partida com um jogador a menos. Beckenbauer permaneceu em campo com uma espécie de bandagem, que apoiava e protegia o braço. Essa é uma das cenas mais emblemáticas de toda a Copa, mas o esforço não evitou a derrota para a Itália por 4 a 3, ao final da prorrogação.

Beckenbauer recebendo atendimento antes de retornar para a semifinal contra a Itália (Foto: dpa)

Ao retornar para seu país, Beckenbauer capitanearia o Bayern para a hegemonia da Bundesliga, numa disputa que se deu durante a década de 1970 contra outro grande time da época, o Borussia Mönchengladbach. Antes uma equipe que não era hegemônica nem em sua própria cidade, o forte time do Bayern conquistaria três títulos consecutivamente da Copa dos Campeões da Europa, em 1973-74, 1974-75 e 1975-76. O poderio da equipe durante esse período fez com que um grande número de jogadores bávaros fossem convocados para a seleção. Uma parte expressiva da equipe convocada pelo técnico Helmut Schön para a Copa de 1974 era composta por jogadores do Bayern de Munique: Sepp Maier, Paul Breitner, Uli Hoeness, Gerd Müller, além é claro, de Franz Beckenbauer. Uma campanha com alguns altos e baixos levaria a seleção alemã a disputar a final contra uma das equipes mais talentosas, inovadoras e lembradas de toda a história do futebol: a Holanda de Cruyff, comandada por Rinus Michels.

Beckenbauer erguendo o troféu da Copa dos Campeões, após a vitória por 4 a 0 contra o Atlético de Madrid, em 1974 (Foto: PA)

Disputa de bola entre Beckenbauer e Cruyff, durante a final da Copa do Mundo de 1974 (Foto: Imago Sportfotodienst)

Certamente, é notável a capacidade que os jogadores holandeses tinham de trocar constantemente de posição. Sem dúvida, o Carrossel Holandês é um dos esquemas de jogo mais influentes e importantes do século XX. Muitos acreditam que a vitória alemã por 2 a 1 na final da Copa tenha sido um resultado surpreendente, assim como foi a derrota da Hungria em 1954. É conveniente lembrar o nível técnico que os jogadores alemães tinham. Além dos celebrados jogadores do Bayern, a Alemanha possuía outros valores, às vezes pouco lembrados, como Rainer Bonhof, Bernd Hölzenbein e Jürgen Grabowski. Outro aspecto relevante, é que o Futebol Total de Rinus Michels enfrentou um jogador capaz de defender e atacar, brilhante em desarmes e na criação de jogadas. Franz Beckenbauer atuava em diferentes posições, como um jogador holandês de Michels. É possível dizer que Beckenbauer era um Jogador Total.

Jogadores alemães comemoram o gol de Gerd Müller na final contra a Holanda, em 1974 (Foto: Imago Sportfotodienst)

Beckenbauer, capitão da seleção alemã, erguendo o troféu da Copa do Mundo em 1974 (Foto: Imago Sportfotodienst)

No Olympiastadion de Munique, a Alemanha em 1974 mais uma vez mostrou sua força contra um grande oponente numa final. A eficiência alemã não se resumia ao campo de jogo, ela estava presente também na arquitetura do estádio. A incrível cobertura do Olympiastadion, projetada por Frei Otto, demonstrava a excelência da engenharia alemã. Depois da Bauhaus, mais uma vez a arquitetura alemã encantava por meio de estruturas tensionadas que uniam arte e engenharia. A criatividade utilizada com um significado funcional e estético, o que referencia a qualidade da estrutura arquitetônica. O projeto estrutural da cobertura do estádio se configurou em arte, e abrigou a segunda conquista mundial da seleção alemã. Mais uma vez o país demonstrava que havia renascido.

Olympiastadion de Munique com a cobertura projetada por Frei Otto (Foto: Getty)

Dezesseis anos depois, Beckenbauer seria o técnico alemão na Copa do Mundo que seria realizada na Itália. Pela terceira vez, os alemães venceriam na final um grande ícone na história do futebol. Depois de Puskás e Cruyff, quem seria derrotado em 1990 pela força, talento e eficiência da Alemanha seria Diego Armando Maradona. O gol da vitória, um pênalti convertido por Andreas Brehme, é um dos símbolos de um período emblemático para a Alemanha. Em 1989, o Muro de Berlim houvera caído, e em outubro de 1990 – pouco tempo após a final da Copa – o país estava novamente unificado. No processo de reunificação, a seleção de futebol teve um papel singular em recuperar a autoestima de um povo. Dentro desse processo, as seleções vitoriosas da Alemanha se notabilizaram por imprimir um esquema de jogo tradicional, mas eficiente.

A Queda do Muro de Berlim, em 1989 (Foto: Bild)

Na Alemanha, Beckenbauer celebra com a multidão a conquista da Copa do Mundo de 1990 (Foto: picture-alliance/dpa)

Ao longo dos anos, o sistema de jogo alemão em geral se caracterizou pela marcação pressão para a retomada da bola, objetividade no ataque, dois volantes que fornecessem estabilidade a defesa e um centroavante fixo que serviria de referência na área adversária. Ao deixar isso de lado, muitas pessoas não entenderam as críticas feitas recentemente por Beckenbauer ao time do atual técnico do Bayern, Pep Guardiola. Em entrevista à Sky Sports, o ídolo alemão disse: “Provavelmente, em algum dia terminaremos jogando como o Barcelona e não se poderá assistir. Ninguém vai querer nos ver, pois quando estão na linha do gol, os jogadores tocam outra vez a bola para trás.” Por que Beckenbauer criticou a forma de jogar de uma equipe que se mostra plenamente capaz de conquistar novamente a Tríplice Coroa? Parte significativa da resposta está no fato de que a tática Tiki-taka, sistema consagrado por Guardiola no Barcelona vitorioso dos últimos anos, é bem diferente do que tradicionalmente as equipes alemãs apresentam.

Pep Guardiola e Beckenbauer durante celebração promovida pelo Bayern de Munique (Foto: EFE)

Nos diferentes campos do conhecimento, o ideal de eficiência se mostrou extremamente importante para a ascensão alemã. Para exemplificar, o célebre arquiteto alemão Mies van der Rohe dizia que “menos é mais”, valorizando formas puras, sem excessos, em edifícios eficientemente projetados com exímia técnica e funcionalidade. Quando se trata de eficiência, ela está relacionada à produtividade, ou seja, em obter os maiores resultados com a menor aplicação de recursos. No futebol, a otimização dos meios disponíveis pode ser feita com um tempo de posse de bola menor, mas que se mostre objetiva para atingir as vitórias.

Com esses pressupostos, é possível dizer que uma infindável troca de passes, que por vezes não geram situações de gol, se mostra realmente eficiente aos olhos de Beckenbauer? Provavelmente não, e ele mesmo corrobora esse entendimento na entrevista dada à Sky Sports: “Se tenho a chance de chutar de fora da área, ainda mais diante de uma defesa fechada, eu o faço. É a forma mais eficaz, embora os jogadores tenham seus direitos plenos.” A questão é que algumas situações relegadas com frequência pelo sistema de jogo de Guardiola – tais como a utilização de Mario Mandžukić, um centroavante fixo e convencional – têm se mostrado mais eficientes em diversas partidas. Conciliar duas visões diferentes acerca do futebol talvez seja o principal desafio do Bayern de hoje.

Barcelona-Pavillon, obra projetada por Mies van der Rohe: eficiência alemã na arquitetura (Foto: Ashley Pomeroy)

Mandžukić comemora seu gol na vitória por 3 a 1 contra o Manchester United, nas quartas de final da Uefa Champions League 2013-14 (Foto: AFP)

No entanto, o maior desafio que se apresenta atualmente para o futebol alemão é o fato da eficiência germânica ser capaz de fazer com que a Mannschaft volte a conquistar a Copa do Mundo depois de 24 anos. Para tanto, a seleção alemã contará com uma geração de jogadores de grande qualidade técnica: Manuel Neuer, Philipp Lahm, Bastian Schweinsteiger, Mesut Özil, Marco Reus, Mario Götze, entre outros. No passado, Fritz Walter foi o líder de uma seleção recém saída da guerra, e Beckenbauer a conduziu no processo de reunificação que culminou em 1990. Serão os jogadores da atualidade capazes de levar a Alemanha a mais um título mundial, para um país de hoje reconstruído e reunificado? Pelo menos, assim desejam os alemães na Copa que será disputada em 2014, no Brasil. É relevante lembrar que seria o primeiro título de um país não mais dividido na geografia e ideologia, em Ocidental e Oriental, capitalista e comunista. Não há dúvidas de que isso é possível, pois com talento e trabalho o povo alemão foi responsável pela reconstrução de uma nação. Em boa parte, um feito realizado com base no ideal da eficiência alemã.

Seleção alemã antes do amistoso realizado contra a Itália, em 2013 (Foto: Getty)

Portão de Brandenburgo: símbolo de um país reunificado e reconstruído (Foto: Thomas Wolf)

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