Fim do jejum, 40 anos: o último grito em 23 temporadas sem títulos
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O ano era 1954. A data não ficaria marcada na história do Brasil apenas pela morte do então presidente Getúlio Vargas. A ebulição esportiva que atraia as grandes massas no país era gigante, principalmente em São Paulo. Corinthians e Palmeiras protagonizavam uma era de ouro do Derby Paulista, e foi nesta data a disputa do campeonato regional daquele ano, só que com um aperitivo a mais para os torcedores: o Campeonato Paulista do IV Centenário de aniversário da capital. Era a comemoração dos 450 anos de existência da maior cidade do país, e quem faturasse o título estaria representando a capital nos próximos cem anos como a principal potência do estado.

A cidade de São Paulo já era a maior metrópole do país, e com isso a opinião pública do Brasil inteira aguardava ansiosamente pela final entre Corinthians e Palmeiras, que aconteceu no dia 6 de setembro 1955, no templo paulista de futebol Paulo Machado de Carvalho, popularmente conhecido como Pacaembu. A data não ficaria marcada apenas pela conquista do Corinthians contra o seu principal rival, mas também por ter sido o último título da equipe alvinegra antes de enfrentar longínquos 23 anos anos de fila, a pior seca da história do clube.

Basílio, o grande herói de 1977, tinha apenas seis anos quando Luizinho, Cláudio, Gylmar, Roberto, Idário, Baltazar e companhia encabeçaram um dos maiores esquadrões alvinegros já vistos na história do clube. Time esse capitaneado pelo lendário treinador Oswaldo Brandão. O futuro reservava um encontro entre heróis 23 anos depois. O garoto Basílio, personagem tão importante na história do Corinthians, não deve se recordar da última vez que tinha visto o clube ser campeão, mas foi o grande responsável por proporcionar aos heróis de 1954 um suspiro de paz. 

Técnica ou raça, para a Fiel tanto faz

A história conta. O Corinthians, portador de grandes conquistas durante a sua linda trajetória até aqui, poucas vezes celebrou grandes esquadrões tecnicamente fortes. A maioria das conquistas eram superadas na raça e empurradas pela sua populosa torcida, assim como em 1977 e 1990. Algumas exceções, como por exemplo no final da década de 90, e claro, como o time de 1954, que Oswaldo Brandão teve a honra de dirigir. O time de Brandão era tão bom, que grande parte dos ídolos da história corinthiana faziam parte daquele elenco. Uma mistura de técnica elevada, raça apurada e identidade inquestionável com a torcida e com a filosofia do clube. 

Tudo começava pelo novato Gylmar dos Santos Neves debaixo das traves. Homero e Olavo se completavam na parte defensiva, o primeiro carinhosamente apelidado de "Mago da Área", e o outro caracterizado pelo seu voluntarismo. A linha média era respeitadíssima, e era ali que combinava a raça de Idário, tratado como um "Deus" pela torcida, e Goiano. A "meiuca" ainda tinha a elegância de Roberto Belangero, apelidado de "Professor" devido a sua postura clássica de jogar sempre com a cabeça erguida e ditar o ritmo de jogo do time. Batia na bola como ninguém. 

Na linha ofensiva faltam adjetivos para classificarmos. Começamos com Cláudio, o "Gerente", sempre aberto pelo lado direito do campo. Ainda é o maior artilheiro da história do clube, e era o grande capitão daquela equipe. Além de gols, anotava cruzamentos perfeitos para Baltazar, conhecido como "Cabecinha de Ouro" devido ao grande número de gols anotados pelo alto. Pelo lado esquerdo, a prancha de Brandão contava com o jovem Rafael, considerado por muitos a grande revelação da campanha e com o ponteiro Simão.

O ataque que já era forte ainda tinha como principal estrele daquela equipe nada mais do que Luizinho, o "Pequeno Polegar". Talvez o mais genial atleta daquele time devido a sua irreverência dentro dos gramados e pelo grande repertório de dribles. Era a ousadia que precisava para completar um plantel que tinha características clássicas. Além do seu desempenho dentro das quatros linhas, Luizinho tinha grande identidade com o clube e torcida. Nasceu, cresceu, e morreu na Zona Leste. Era um torcedor em campo e contava com a empatia da Fiel Torcida, aliás, foi dele o gol do título contra o Palmeiras.

Festividades de 1954, o último grito em 23 anos

O ano de 1954 foi marcante para a cidade de São Paulo. Além das grandes festas espalhadas pela cidade, a capital paulista celebrou a inauguração de grandes espaços públicos que são marcos até os dias atuais, como o Parque do Ibirapuera, Monumento às Bandeiras e Catedral da Sé, erguida sobre o local da primeira igreja matriz paulistana e construída ao longo de 41 anos. Por tudo que aconteceu de positivo em 1954, aquele Campeonato Paulista não era um simples torneio. Quem vencesse entraria naquela atmosfera festiva que atingia a cidade, e com certeza alavancaria o seu número de torcedores.

Em um domingo clássico, com sol, e Pacaembu lotado com ambas as torcidas, Corinthians e Palmeiras entraram em campo para a grande final. O alviverde trajava uniformes azuis. Em homenagem a squadra azzurra. Nunca venceu nada jogando de azul. Não foi diferente naquela tarde. O Corinthians segurou o empate por 1 a 1, com gol do lendário Luizinho, e faturou a taça. Foram os últimos gritos de campeão que muitos corinthianos deram em sua vida, dando lugar a uma longa angústia, mas trazendo também um incrível crescimento da torcida alvinegra.

Torcedores nasciam, cresciam, e alguns ficavam pelo caminho, mas nada do Corinthians - clube mais popular da cidade - vencer um título até 1977. Quem saiu as ruas para comemorar os 450 anos de São Paulo, seja ele palmeirense, santista ou são paulino, nunca imaginaria que a grande potência esportiva da cidade, que aquele esquadrão imbatível amargaria tantas decepções nas próximas duas décadas. Um prato cheio para os rivais, mas também cheio de esperanças para a Fiel nos próximos anos.

O pesadelo terminou em 1977 pelos pés de Basílio, mas principalmente pela prancha de Oswaldo Brandão. A lenda da beira do gramado corinthiano, conseguiu não só comandar um dos melhores times em 1954, mas também encerrou um jejum que ele mesmo acompanhou durante os 23 anos que o Corinthians havia levantado o seu último troféu, e sob o seu comando. Para Brandão, Basílio e Fiel Torcida, os dias de 6 de fevereiro de 1954 e 13 de outubro de 1977 nunca tiveram os céus tão azuis.

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