Ginástica, aposentadoria e projeto social: Daiane dos Santos abre o jogo na VAVEL Brasil

Mesmo fora das competições, gaúcha continua ligada à ginástica através de projeto sócio-educativo e trabalho como comentarista

Ginástica, aposentadoria e projeto social: Daiane dos Santos abre o jogo na VAVEL Brasil
Foto: Mike Blake/Reuters

Nenhum brasileiro consegue escutar as notas iniciais de Brasileiro sem lembrar de Daiane dos Santos fazendo o famoso duplo twist carpado no solo. Atualmente com 34 anos, a gaúcha foi a primeira ginasta brasileira a ganhar uma medalha de ouro em um Campeonato Mundial, na Califórnia, em 2003, embalada com a mesma música de Waldir Azevedo.

Referência profissional para muitas meninas e atletas brasileiras e mundiais, a ex-atleta de 1,46m de altura decidiu se aposentar após os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, no qual teve o melhor desempenho na equipe brasileira. Hoje, a ex-ginasta se dedica a desenvolver futuros talentos e suprir a falta de investimento de base no esporte através do projeto sócio-educacional “Brasileirinhos”.

À VAVEL Brasil, Daiane falou sobre a pressão dos campeonatos, o racismo nas competições, a vida pós-aposentadoria e sua geração de atletas.

VAVEL Brasil: No Brasil, não existe aposentadoria para atletas. Como foi para ti parar de competir depois de uma carreira tão bonita e querida pelo público?

Daiane dos Santos: "Bem, eu acho que a decisão de se aposentar nunca é fácil, mas antes do atleta pensar nisso, de parar de treinar, parar de fazer essa atividade física que é o trabalho dele, ele tem que se preparar, já pensar em fazer uma formação, pensar o que ele vai fazer daqui pra frente, qual carreira ele quer seguir, de que forma ele vai dar seguimento para o que ele já faz ou mudar completamente de área. Acho que isso é muito importante, mas a decisão de parar sempre é muito difícil. Tem que ter uma preparação psicológica para isso também. Por exemplo, no meu caso eu fiz ginástica durante 18 anos, então meu corpo sentiu falta durante anos. Só agora, depois de 5 anos, que ele tá entrando em adaptação, que ele entendeu que eu não sou mais atleta. O corpo pede e a nossa mente pede também. Ela tá acostumada com essa rotina. Mas eu acho que é muito bom também viver uma carreira diferente. A aposentadoria no Brasil ela é fictícia, ela é só um nome. Não tem nenhum amparo social para isso. A gente não ganha aposentadoria financeira, mas deixa de ser atleta e começa a partir para uma nova carreira ligada ou não ao esporte".

VB: Qual característica tua foi mais importante para você chegar onde chegou na ginástica?

DS: "Bem, eu acho que minha principal característica para conseguir chegar até meu objetivo foi a determinação. Acho que superar todos os obstáculos, ter um foco e seguir em frente para chegar até o objetivo foi muito importante para mim. Então, acho que a determinação é muito forte. Se eu tivesse que resumir em uma palavra seria essa".

VB: É impossível falar da ginástica sem citar o seu nome. Como você lida com isso? Concorda que a sua geração mudou o patamar da modalidade no país?

DS: "Concordo, sim, que essa geração mudou a visão da ginástica pro mundo e pro Brasil também, mas tudo isso veio por uma mudança geral. A gente teve mais investimento no esporte com as leis de incentivo. A seleção fez uma concentração permanente lá em Curitiba, onde todas nós moramos juntas durante oito anos. Se deu a condição adequada para todas treinarem igualmente. Eu acho que tudo isso fez com que todo o potencial da seleção pudesse ser desenvolvido e acabou aumentando cada vez mais os resultados benéficos para o Brasil. E isso fez com que a ginástica brasileira se tornasse tão reconhecida dentro do país e fora também".

VB: Quando você foi para as Olimpíadas de Atenas, você foi com uma das favoritas. Esse reconhecimento é maravilhoso, mas também carrega muita pressão. Como tu lidava com essa pressão e a ansiedade durante as competições?

DS: "Acho que pressão a gente sempre sofre. É normal isso acontecer, sempre tem a pressão externa. Mas eu acho que o mais difícil é a pressão interna, nossa como atleta, que é bem difícil de controlar. Aos poucos, ao decorrer das competições, a gente vai ganhando mais experiência e vai aprendendo a lidar com essa ansiedade que,  no fundo, é até positiva, porque ficar muito apático também é ruim, mas demais ela te atrapalha. Então, o ideal é alcançar esse equilíbrio, fazer com que isso reverta de uma forma positiva, que possa ser utilizada para benefício da competição em geral".

VB: Hoje, com a internet, os preconceitos sofridos por atletas negros são mais visível, como o caso de Angelo Assumpção. Você  passou por alguma situação de preconceito durante sua carreira?

DS: "Essa questão do preconceito já é presente há muito tempo. Realmente, hoje, com a internet, eu acho que todos os tipos de preconceitos, todas as situações são latentes e inclusive para todas as pessoas. É muito difícil ver algum negro que não tenha sofrido algum tipo de preconceito, mas eu a diferença é como a gente encara esse preconceito. Eu acho que tem que ser com educação, mostrando que o preconceito é uma erva daninha e que ele precisa ser exterminado. As pessoas precisam entender que se você quer respeito, respeite também. Você não precisa se o melhor amigo, mas se você não gosta, não precisa ofendê-lo. Eu acho que a gente sabe o nosso valor e cada um tem que saber o seu e compreender o que é certo e o que não é, o que é verdadeiro ou não".

VB: Mesmo afastada das competições desde 2012, você ainda é muito ligada ao esporte por ser comentarista e administrar o projeto social Brasileirinho. Por que você acredita que projetos sociais são tão importantes para o esporte?

DS: "Os projetos sociais hoje eles são uma contribuição que os ex-atletas ou os atletas atuais podem dar para a sociedade. O esporte ligado a educação, dentro de um projeto sócio-educativo, como é o Brasileirinhos, ajuda a transformar a vida dessas crianças e desses jovens que praticam. Mostrando uma visão de vida diferente da que ela já vem, um lado mais positivo, passar essas diretrizes do esporte, o respeito, a disciplina, os desafios dos medos, superação, garra, união de grupo, todos os valores e as regras que o esporte emprega, que são muito parecidos com o que acontece na vida. Então, fazer essa ligação do esporte social, dando oportunidade a outras crianças, a gente tá descobrindo novos diamantes, não só para o esporte, mas também para a vida em geral. Dali podem sair médicos, fisioterapeutas, psicólogos, advogados, enfim. A gente não pensa na formação de atleta, mas sim na formação do caráter do ser humano. Eu acho que esse é o principal papel do projeto social hoje: oportunizar grandes possibilidades na vida dessas crianças".

VB: Você acha que o país é carente de investimento para os esportes?

DS: "Sim, o Brasil ainda tem uma carência muito grande pro esporte, principalmente porque a gente ainda não tem uma política esportiva formada dentro do nosso país. Acho que facilitaria muito se houvesse um investimento no esporte, principalmente nas categorias de base, porque hoje, no alto rendimento, já melhorou bastante, mas na base ainda falta muito. Se a gente tivesse o esporte na escola, como acontece nos outros países, nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia, ajudaria muito. Hoje a gente tem uma desvalorização cada vez mais forte do profissional de educação física. Hoje, a educação física nem sequer entra na grade curricular da escola e pra gente que trabalha na área, é realmente muito difícil. Já melhorou muito do que se tinha antes, porque antes não se tinha nada e hoje já temos leis que amparam os atletas, mas ainda tá muito baseado só no alto rendimento e a gente precisa da base, do meio entre o alto rendimento e a base, até chegar a ser um atleta de ponta. Ainda falta um pouco desse olhar para a gente desse lado. E claro que, construindo isso, vai se construir uma política esportiva que é o que a gente tem de mais ausente no Brasil hoje".

VB: Como você vê a renovação da ginástica no Brasil?

DS: "Eu acho que o Brasil vem se mantendo com uma geração de bons ginastas. Tem havido um crescimento e a gente espera que isso aconteça cada vez mais porque se não o esporte acaba morrendo. Fico contente, acho que a gente tem alcançado cada vez mais objetivos maiores, cada vez aumentando mais o quadro de medalhas com atletas alcançando resultados específicos. E é isso que a gente quer ver. Mostrar que o Brasil tem sim, com todas as dificuldades, uma grande ginástica e pode fazer parte da história do esporte mundial".