Mário Coluna: mais um ídolo do Benfica que se vai em 2014
Mário Coluna faleceu aos 78 anos em Maputo, capital de Moçambique (Foto: Divulgação / SL Benfica)

No dia cinco de janeiro, Eusébio da Silva Ferreira, maior artilheiro da história do Benfica, faleceu aos 71 anos. A morte do "Pantera Negra" causou comoção em Portugal e no mundo inteiro; Eusébio teve uma despedida de rei graças aos adeptos benfiquistas, que mostraram como o maior ídolo de um clube deve ser tratado, esteja ele vivo ou morto.

Um mês e vinte dias depois, foi a vez de Mário Esteves Coluna, seu "irmão de consideração", falecer. Assim como Eusébio, Mário Coluna nasceu em Moçambique - enquanto o primeiro era natural da capital Maputo, o segundo veio ao mundo na Ilha da Inhaca -, território que à época era colônia de Portugal, em 6 de agosto de 1935. Sendo assim, detinha nacionalidade portuguesa.

O ano de 2014 está recheado de saudades para a torcida do SLB: além dos falecimentos de Eusébio e Coluna, completaram-se dez anos da morte de Miklós Fehér.

Líder e vitorioso

Com apenas 19 anos de idade, Coluna fazia boas atuações em solo moçambicano, onde vestiu a camisa do Desportivo Lourenço Marques, e já era objeto de desejo do "Trio de Ferro" do futebol português - Benfica, Porto e Sporting Lisboa -, mas optou por defender a Águia por um simples motivo: seu pai era benfiquista e, evidentemente, não queria vê-lo jogar pelo Dragão ou pelo Leão.

Entre os anos de 1954 e 1970, Mário consagrou-se em terras portuguesas e, além de conquistar a braçadeira de capitão - ao todo, foram 677 partidas pelo SLB, sendo 328 delas como capitão da equipe -, comemorou muitos títulos: duas Copas dos Campeões da Europa (1960-1961 e 1961-1962), dez Campeonatos Portugueses (1954-1955, 1956-1957, 1959-1960, 1960-1961, 1962-1963, 1963-1964, 1964-1965, 1966-1967, 1967-1968 e 1968-1969) e sete Taças de Portugal (1954-1955, 1956-1957, 1958-1959, 1961-1962, 1963-1964, 1968-1969 e 1969-1970). Não à toa tornou-se ídolo, sendo também o capitão que mais conquistou taças pelos Encarnados e mais marcou gols (150).

Inicialmente, jogava como atacante, mas mudou-se para a posição de meio-campista após a chegada de Otto Glória ao comando do SL Benfica. Em 1960, Coluna acolheu Eusébio, a pedido da família do até então jovem atacante. Uma carta assinada pela mãe de seu compatriota pedia para que ele cuidasse bem do garoto - Mário Coluna era amigo da família de Eusébio. A partir dali, nascia uma parceria vitoriosa. O "Monstro Sagrado", como ficou conhecido, mostrou que tinha espírito de liderança tanto fora quanto dentro dos gramados.

Eusébio (à esquerda) e Mário Coluna: "irmãos" que formaram uma estimada parceria no futebol português e nos deixaram num curto intervalo de tempo (Foto: Divulgação / SL Benfica)

Mário Coluna mostrava classe e era decisivo

Curiosamente, "Senhor Coluna" - outro apelido - marcou gols nas duas finais europeias vencidas pelo Benfica. Em 1961, assinalou o 3º tento benfiquista na vitória por 3 a 2 sobre o Barcelona de Kocsis, Evaristo de Macedo e Czibor. O duelo foi jogado no Wankdorf Stadium, em Berna, na Suíça. No ano seguinte, no Estádio Olímpico de Munique (Alemanha), tinha mais um clube espanhol pela frente. Desta vez, o lendário Real Madrid de Tejada, Di Stéfano e Puskás. O meia não se intimidou e fez o gol que atualizava a contagem no marcador para 3 a 3. Também sofreu o pênalti que originou o gol da virada, convertido pelo seu parceiro Eusébio, que viria a balançar as redes novamente. O resultado final foi de 5 a 3 para os Encarnados.

Mário Coluna também mostrou classe vestindo a camisa da seleção portuguesa. Estreou em 1955, na derrota de 3 a 0 para a Escócia em partida amistosa, e despediu-se em 1968, no revés de 4 a 2 para a Grécia nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970. Ao todo, foram 57 aparições e oito bolas na rede.

Ele era o capitão de Portugal na Copa do Mundo de 1966, na melhor campanha da história do selecionado, o qual terminou o Mundial na terceira colocação. Mesmo não marcando um gol sequer, suas performances nas partidas lhe renderam uma presença na seleção da competição, juntamente com o seu "irmão" Eusébio, artilheiro do certame com nove gols. Outro português o qual fez parte do seleto grupo foi o defensor Vicente Lucas. Coluna também esteve presente no ranking FIFA dos 100 melhores jogadores do Século XX.

Mário Coluna (à esquerda): capitão do Benfica e da seleção de Portugal (Foto: Divulgação / FPF)

Pouco se fala disso, mas o Benfica não foi o único clube profissional da carreira do Monstro Sagrado. Após deixar o Benfica, Coluna vestiu a camisa do francês Lyon. As estatísticas apontam os seguintes números: 19 partidas e dois gols, de 1970 a 1971. Após sua breve passagem na França, Mário voltou à sua terra natal. Em Moçambique, foi jogador e treinador do SC Estrela, clube amador da cidade de Pontalegre. Ocupou tais cargos até 1972, quando chegou à aposentadoria definitiva.

Ícone nacional

Após a Independência de Moçambique, fato consolidado em 1975, Mário Coluna iniciou carreira na política. Foi deputado e presidente da Federação Moçambicana de Futebol. Também trabalhou em construções de estradas de ferro pelo país e foi ministro dos esportes por seis anos, de 1994 a 1999.

E não parou por aí. Ainda criou uma academia de futebol na vila de Namaacha. O intuito era formar jogadores dentro da nação africana. Inicialmente intitulada Academia de Futebol, hoje o centro recebe o nome do ex-jogador. Devido a tudo isto, ganhou status de herói nacional.

"Após a independência, ele pegou na bandeira, veio a Moçambique para ajudar o país e o esporte, em particular. Foi treinador, fez bom trabalho nos clubes e como dirigente, em especial como presidente da Federação, ajudando a abrir as portas de Moçambique ao mundo", afirmou Fernando Sumbana Júnior, atual ministro dos esportes de Moçambique.

Além de jogador de futebol, Mário Coluna também foi político; era honesto e pensava no povo o qual representava, diferentemente da grande parte dos políticos atuais - Coluna, quando ainda era jovem, também disputou competições de boxe e atletismo (Foto: Wikipédia)

Despedida e homenagens

A 25 de fevereiro, Senhor Coluna perdeu a vida no Instituto do Coração de Moçambique, em Maputo. A causa da sua morte foi uma infecção pulmonar. Dois dias depois, o Benfica recebeu o PAOK, da Grécia, no Estádio da Luz, em partida válida pela fase dos 16-avos-de-final da UEFA Europa League 2013-2014. Como era de se esperar, o ídolo foi homenageado com um minuto de silêncio e com cânticos durante a peleja.

Enquanto a equipe do Benfica posava para a tradicional foto antes do jogo, a torcida local estendeu um bandeirão em homenagem ao ídolo (Foto: Divulgação / Isabel Cutileiro / SL Benfica)

Dentro de campo, a Águia venceu em grande estilo: 3 a 0, gols de Nico Gaitán, Lima (de pênalti) e Markovic - o placar agregado foi de 4 a 0. Uma vitória ao estilo Mário Coluna. Mas a caminhada ainda é longa. O Benfica, além das oitavas-de-final da Liga Europa, tem as semifinais da Taça da Liga e da Taça de Portugal, sem falar da Liga Zon Sagres, na qual é o atual líder, com 49 pontos. As mortes de Eusébio e Coluna deixam os jogadores enlutados, mas, ao mesmo tempo, devem motivá-los a conquistar títulos e dedicá-los a quem ajudou o SLB a tornar-se o clube grande e respeitado que é.

"O exemplo de Mário Coluna não é apenas patrimônio do Benfica, é patrimônio do futebol, a pátria onde verdadeiramente Coluna sempre esteve mais à vontade. Estará sempre conosco", disse o presidente do clube, Luís Filipe Vieira, em nota oficial.

Ex-companheiros de equipe também comentaram a morte do ex-capitão. "A mística que o Benfica tem muito se deve a Coluna", frisou o ex-goleiro José Henrique. "É uma perda significativa para a família benfiquista. Mário Coluna era um ídolo europeu e mundial", declarou José Augusto, ex-meia direita.

Em sua conta oficial na rede social Facebook, o Sport Lisboa e Benfica relembrou a trajetória de Mário Coluna com a camisa encarnada e branca num vídeo intitulado "Até sempre, Monstro Sagrado". O jornal O Benfica teve uma manchete inteiramente dedicada ao Senhor Coluna.

Capa do jornal "O Benfica" da última sexta-feira, dia 28 (Foto: Divulgação / SL Benfica)

Na França, o Lyon publicou uma nota em seu site oficial, relembrando toda a carreira do ex-meio-campista. "O Olympique Lyonnais apresenta as sinceras condolências aos seus familiares e ente-queridos" era o trecho final da declaração.

Enterrado com honras militares - o funeral foi transmitido pela TV local - na Ilha da Inhaca, sua terra natal, Mário Coluna estará sempre vivo na memória dos benfiquistas, bem como dos apaixonados por futebol e/ou por política. Além de exímio jogador, foi uma pessoa detentora de um estimado caráter e de uma vida exemplar.

Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, foi a Moçambique para se despedir de um dos maiores ídolos da história do clube (Foto: maisfutebol.iol.pt)

"A sua obra e o seu percurso de vida representam um símbolo dos imperecíveis laços que unem os nossos dois países. A sua memória, a que aqui presto renovada homenagem, jamais se apagará", escreveu Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal, em carta enviada a Armando Guebuza, presidente de Moçambique.

Coluna levou o nome do Benfica e o de Portugal aos quatro cantos do planeta e agora descansará em paz junto ao seu irmão Eusébio.

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