Democrata de Sete Lagoas pede socorro em carta aberta à FMF, CBF e FIFA
Clube de Sete Lagoas pede socorro às federações estadual, nacional e internacional (Foto: Divulgação/Democrata)

Nesta sexta-feira (3), o Democrata de Sete Lagoas publicou uma carta aberta em suas redes sociais direcionada aos presidentes da Federação Mineira de Futebol (FMF), Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e Federação Internacional de Futebol (Fifa) pedindo socorro, em função das dificuldades financeiras enfrentadas, situação agravada com a paralisação da temporada pelo Covid-19.

Se para clubes com maior aporte financeiro a paralisação no calendário devido à pandemia do coronavírus trouxe cautela e replanejamento, para os   clubes chamados 'invisíveis' a pausa foi a última gota, como traz a nota do clube mineiro. Times tradicionais como Patrocinense, Uberlândia e URT pararam suas atividades com a impossibilidade de seguir com a temporada. O clube da Região Central de Minas Gerais destacou os impasses para se manter em competições oficiais. No comunicado, o clube setealagoano justifica os motivos das dificuldades financeiras enfrentadas pelos clubes 'invisíveis'. 

"Isto aconteceu, em grande parte, porque os “invisíveis”, que antes formavam jogadores e os vendiam, desde o fim da “lei do passe” formam para que clubes maiores e agentes venham e os levem gratuitamente. O custo de formação continuou com os “invisíveis”, mas a receita nos foi usurpada, sem que fosse feito um fundo que permitisse que estes clubes fossem mantidos vivos", revela o clube de Sete Lagoas.

A carta aberta traz o desamparo das confederações e federações para com os clubes pequenos, e afirma que a atitude pode matar celeiros de bons jogadores e até as tradições de suas cidades em ter um time que represente um povo. O Democrata de Sete Lagoas disputa a segunda divisão do Campeonato Mineiro, e com as competições paralisadas, está sem verbas de TV e patrocínios, de modo inviabilizar a manutenção das atividades durante o ano.

O documento foi assinado pelo presidente do clube, Renato Paiva, e tem o intuito de buscar ajuda para que a equipe do interior consiga se manter, com ajuda financeira vinda das federações.

Procurada pela VAVEL, em nota, a Federação Mineira de Futebol (FMF)  prefere não se manifestar sobre o assunto. 

"A FMF prefere não se posicionar a respeito, já que não é política da instituição debater publicamente assuntos internos e administrativos com filiados, mas tão somente entre a entidade e os filiados, como sempre acontece ao longo dos últimos anos. Prova disso foram as reuniões realizadas entre o Presidente Adriano Aro e os clubes do Módulo I e do Módulo II, para tentar encontrar soluções para a questão", ressalta a federação.

O Democrata foi o primeiro clube a se manifestar contra a situação. A paralisação no Campeonato Mineiro é até 30 de abril para das duas divisões.

Confira a carta aberta na íntegra: 

CARTA ABERTA À FMF, CBF E FIFA - COVID-19 COMO A ÚLTIMA GOTA

"Exmos. Srs. Presidentes da Federação Mineira de Futebol (FMF), Adriano Guilherme de Aro Ferreira, da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Rogério Langanke Caboclo, e da Federação Internacional de Futebol (FIFA), Giovanni Vincenzo Infantino Nas últimas semanas, temos visto escancarada a realidade do futebol brasileiro, especialmente daquele vivenciado pelos chamados “clubes invisíveis”, que são os grandes empregadores e formadores do futebol brasileiro desde que a bola chegou neste país.

Estes “clubes invisíveis”, quase sempre esquecidos pelos “grandes”, mas que os abastecem de jogadores, e pelas instituições que controlam o futebol, mas que cobram AS MESMAS (absurdas) taxas pagas pelos grandes, acabaram de cair no abismo; o copo d’água acabou de transbordar com a última gota, chamada Covid-19. Esta quebradeira não é culpa do Covid-19, mas chegou ao seu limite com ele. Isto aconteceu, em grande parte, porque os “invisíveis”, que antes formavam jogadores e os vendiam, desde o fim da “lei do passe” formam para que clubes maiores e agentes venham e os levem gratuitamente. O custo de formação continuou com os “invisíveis”, mas a receita nos foi usurpada, sem que fosse feito um fundo que permitisse que estes clubes fossem mantidos vivos.

Nem mesmo um calendário digno foi pensando para que as atividades deles percorressem o ano todo. Muito menos foram tentados patrocínios coletivos para auxílio em material esportivo, transporte e outras despesas cotidianas. Por que não trazer patrocinadores para os campeonatos menos interessantes para a mídia e, em troca, colocar anúncios destes patrocinadores nos campeonatos de maior audiência? Não seria uma justa troca?? Afinal, somos nós a base do futebol brasileiro. É aqui que tudo começa!! E vocês sabem disso!! Mas, nosso fôlego acabou.

O desequilíbrio financeiro gerado nas últimas décadas chegou ao seu limite. Enfim, estamos pedindo SOCORRO em nome do nosso querido Democrata Futebol Clube, de Sete Lagoas/MG, que tem 105 anos de fundação e revelou inúmeros grandes jogadores, vários com passagem pela Seleção Brasileira, que tirou outras tantas crianças e jovens das ruas, educando-as, que gerou milhares de empregos e que entreteve centenas de milhares de pessoas ao longo de sua história.

Mas, acreditamos que este é um recado de todos os “clubes invisíveis”. Nos ajudem! Não só com um apoio financeiro imediato, o que seria um antitérmico, mas com uma reestruturação do futebol que nos devolva a dignidade. Como somos invisíveis, não sei se a carta chegará aos seus destinatários, apesar de contarmos com as redes sociais. Não chegando, fica apenas como desabafo de pessoas que lutam pela sobrevivência de clubes de futebol pelo Brasil afora. Aqueles que quiserem/puderem, sintam-se à vontade para replicar esta carta como quiserem. Cuidem-se, todos! 

Sete Lagoas, 03 de abril de 2020"

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