Legado Olímpico: o que os Jogos do Rio deixam para o futuro?

A Olimpíada chegou ao fim e, certamente, deixará muitas marcas. Mas o que vai mudar na cultura esportiva do país e na sociedade depois que o palco estiver de todo vazio?

Legado Olímpico: o que os Jogos do Rio deixam para o futuro?
A Pira Olímpica do Povo, em frente da Igreja da Candelária, que, há 23 anos foi palco de um massacre de jovens pobres e negros, foi acesa por um jovem pobre e negro que tem uma vida inteira pela frente. (Foto: Marcos Brindicci/Reuters)

Desde o anúncio de que o Rio de Janeiro sediaria os Jogos Olímpicos de 2016 houve grande expectativa e discussões sobre os resultados que o evento traria para a cidade e o país. Foram muitos os que discordaram e disseram que o país não teria a estrutura necessária para receber uma Olimpíada.

Porém, há uma semana os Jogos acabaram e esta edição foi considerada a melhor Olimpíada da História. O Brasil e a cidade do Rio, o povo brasileiro, conseguiram surpreender e encantar o mundo com sua receptividade e calor humano. As cerimônias de abertura e encerramento foram verdadeiros shows de tecnologia e arte, que mostraram ao mundo todas as cores da cultura carioca e brasileira. Para além disso, atletas que, até então, viviam no anonimato se destacaram e conquistaram os lugares mais altos nas modalidades mais improváveis e menos valorizadas no país.

Esporte é inspiração. Quando Rafaela Silva conquistou sua medalha de ouro no judô, a primeira do quadro de medalhas do Brasil, ela falou sobre as lutas que enfrentou fora do tatame ao longo de toda a vida e, principalmente, após a eliminação na Olimpíada de Londres. A atleta sofreu racismo, além de outras ofensas no ambiente virtual. Entrou em depressão e pensou em desistir do esporte, mas não. Resistiu, não desistiu e superou todos os seus fantasmas na final da categoria dos 57kg e mostrou a todos os que a criticaram do que era capaz.

A atleta é fruto do Instituto Reação, que tem como o objetivo formar atletas de alto nível para competições internacionais. Tem centros de treinamento em áreas carentes do Rio, como a Rocinha, Deodoro e a Cidade de Deus, de onde a atleta veio. Com a vitória de Rafaela, projetos como este ganharam visibilidade e, além disso, despertaram o interesse de outras crianças com histórias semelhantes às dela. Na mesma tarde em que a judoca conquistou o ouro, sua vizinha foi entrevistada e disse que também queria lutar, também queria ser uma atleta.

Rafaela é apenas um exemplo de como o esporte pode transformar e inspirar. O fato é que existem centenas e milhares de crianças, adolescentes, jovens que voltaram seus olhares para esta Olimpíada, tão perto de suas casas, e passaram a nutrir o desejo de praticar algum esporte e, quem sabe, se tornar algum dia estrela de sua modalidade.

Projetos como o de Flávio Canto existem nas favelas e bairros pobres das grandes cidades com a intenção de afastar crianças e adolescentes das drogas e da criminalidade e, através do esporte, dar disciplina e apontar um caminho diferente do que, sem outras condições, elas poderiam conhecer.

É este o poder do esporte e o maior legado que um evento no porte da Olimpíada pode deixar para um país como o Brasil e uma cidade como o Rio. Porém, estes projetos são independentes e permanecem existindo com poucos recursos. É mais do que necessário que haja investimento e incentivo de todas as esferas do governo para que continuem fazendo a diferença na sociedade.

O Rio ganhou uma estrutura enorme com a Cidade Olímpica, o Parque Olímpico da Barra, o Centro Olímpico de Deodoro, que são grandes potenciais para que estes e outros projetos continuem existindo com ainda maior capacidade de receber possíveis futuros atletas que têm interesse em deixar que o esporte transforme suas vidas. Porém, é necessário que haja cobrança e que não desistam do esporte. Que não caia no esquecimento tudo o que o país conquistou na Olimpíada, que haja continuidade em tudo o que começou a acontecer por causa destes Jogos, ainda que longe do alcance dos olhos.

Outro ponto que não pode passar despercebido é a visibilidade que o futebol feminino ganhou com a Olimpíada do Rio. Durante as três semanas do evento a Seleção Brasileira foi o centro das atenções. É fato que isso aconteceu muito pelo mau desempenho que a equipe masculina teve no início dos Jogos, como um tipo de cobrança, mas também é certo que muitas pessoas foram honestas em seus clamores por mais atenção às mulheres do futebol depois que a cortina fechasse. E o que está acontecendo é que milhares de vozes seguem pedindo por essa atenção, e que sinais de mudança já podem ser vistos. A grande mídia tem falado mais sobre as reais condições da categoria no Brasil. A própria CBF tem divulgado os eventos dos times femininos, como a Copa do Brasil. Emissoras de televisão começam a arriscar transmitir jogos das competições femininas no futebol.

Isso deve durar, e certamente será uma grande marca que os Jogos Olímpicos do Rio deixarão para o esporte no Brasil.

Vivemos um período delicado na política e temos inúmeros problemas que não se resolvem tão facilmente. Sobretudo, é certo que o Brasil jamais se esquecerá dessas três semanas de agosto. E, se nossas conquistas como país e sociedade, e nossas conquistas no esporte, e as conquistas do esporte por si só não caírem no esquecimento, o legado da Rio 2016 resistirá. O Brasil conseguiu realizar a maior Olimpíada de todos os tempos. Que isso fique na história. Que essa memória não se perca, não apenas na lembrança, mas na prática, com mudanças reais e diárias na sociedade.