Das brigas políticas à país-sede: o caminho da Rússia para receber a Copa do Mundo de 2018
Das brigas políticas à país-sede: o caminho da Rússia para receber a Copa do Mundo de 2018

Uma das maiores potências, à época, do planeta, desenvolvendo o bloco comunista, a União Soviética também sempre teve a sua importância no futebol. Apesar de não ser a nação mais vitoriosa de todas – venceu a Eurocopa de 1960 e foi medalha de ouro nas Olimpíadas de 1956 e 1988 –, mas, mesmo assim, era uma equipe que colocava respeito por onde passava, sendo, naquele momento, umas das mais tradicionais de todo o continente europeu.

Oleg Blokhin, Lev Yashin, Sergei Aleinikov, Igor Netto.. Esses são alguns nomes históricos que desfilaram pelos gramados do mundo com a camisa da União Soviética. A forte força financeira do país era refletida no futebol, que tinha uma grande infraestrutura e investimento – conseguindo garantir bons resultados: os “Cientistas da bola”, como ficaram conhecidos, foram a primeira seleção a vencer um campeonato europeu de seleções, em 1960, com um jogo que prezava jogadas trabalhadas e de muito esforço físico por parte de seus jogadores.

Reviravoltas, resultados negativos, azar em sorteios, troca-troca envolvendo treinadores. Esses são alguns dos fatores que marcam a história da Seleção Russa, que passou a ser uma nação independente em 1992, após o fim da União Soviética. A VAVEL Brasil preparou um especial contando toda a história da equipe durante esses anos.

Momento pós-União Soviética: más campanhas e fracassos

Após a separação com a União Soviética, a Rússia teria que “recomeçar” no futebol -  dessa vez, como uma nação independente e com um investimento bem menor. O primeiro desafio se deu nas Eliminatórias para a Copa de 1994, em que os russos se classificaram ao lado da Grécia. No Mundial dos Estados Unidos, o único fato marcante foi Oleg Salenko ter marcado 5 gols em uma mesma partida – a maior quantidade de um jogador em um mesmo jogo na história das Copas – contra Camarões, já que os russos não passariam da fase de grupos.

Salenko no seu histórico jogo de cinco gols (Foto: Patrick Hertzog/AFP)
Salenko no seu histórico jogo de cinco gols (Foto: Patrick Hertzog/AFP)

Com as ruins atuações em 1994, Oleg Romantsev assumiria o posto de treinador da seleção russa, buscando uma boa campanha na Eurocopa de 1996. Apesar de ter se classificado com folga, não teve sorte no torneio final, ficando no grupo de Alemanha, República Tcheca e Itália – fracassando, sem ganhar nenhuma partida, vendo os alemães e os tchecos irem adiante.

O buraco ficaria ainda mais fundo dois anos depois, nas Eliminatórias para a Copa de 98, na França. Em um grupo com Bulgária, Israel, Chipre e Luxemburgo, ficou na segunda posição e se viu em uma árdua missão, já que enfrentaria a tradicional Itália na repescagem da competição – e ficaria pelo caminho: 1 a 1 em seu território no jogo de ida, e uma derrota pelo placar mínimo fora de casa. A história se repetiria anos depois, quando os russos não conseguiram se classificar para a Eurocopa de 2000, empatando por 1 a 1 a última e derradeira partida do grupo contra a Ucrânia, dentro de seu território, graças a uma falha do goleiro Alexandr Filimonov.

O divisor de águas

Com uma série de resultados negativos, a Federação Russa traçou como objetivo principal voltar a disputar a Copa do Mundo em 2002. Para isso, Oleg Romantsev continuou com os nomes já carimbados pela seleção, como os de Viktor Onopko e Stanislav Cherchesov, tendo pouco a presença de jovens, o que significava um pequeno processo renovação de plantel – as novidades com idade mais baixa, à época, eram Aleksandr Kerzakhov, com 19 anos, Marat Izmailov, 19, e Dmitri Sychev, com 18.

A classificação para o torneio foi um tanto quanto tranquila,                    superando Suíça. Luxemburgo, Iugoslávia, Eslovênia e Ilhas Faroe nas Eliminatórias, os russos tiveram a vida mais dificultada no torneio final. Pegando, mais uma vez, um grupo complicado com Bélgica, TunísiaJapão, um dos países-sede da competição. Apesar da vitória sobre a seleção da África por 2 a 0, a Rússia foi derrotada nas outras duas partidas e se viu fora da Copa precocemente.

Reação dos torcedores russos em Moscou após a derrota sobre o Japão (Foto: Oleg Nikishin/Getty Images)
Reação dos torcedores russos em Moscou após a derrota sobre o Japão (Foto: Oleg Nikishin/Getty Images)

O período pré-Eurocopa de 2004 seria muito conturbado. Após a Copa da Coreia do Sul e Japão, Valery Gazzaev, que assumiu vindo do CSKA, fora demitido com apenas quatro jogos na fase de grupos, já que a Rússia não fazia boa campanha. Com isso, Georgi Yartsev assumiu o cargo e fez uma ótima campanha de recuperação – chegando à repescagem, eliminando País de Gales com um placar agregado de 1 a 0.

Como de costume, o sorteio não ajudou e a Rússia ficaria em um grupo que conteria as duas nações finalistas daquela edição, Portugal e Grécia, além da Seleção Espanhola. Com uma diferença técnica grande em relação aos adversários, a Seleção Russa mais uma vez daria adeus à uma competição muito cedo, já que perdera as três partidas da chave, ficando em último lugar.

A situação ficaria ainda mais caótica alguns anos depois. Nas Eliminatórias para a Copa do Mundo na Alemanha, em 2006, a Seleção Russa caiu em um grupo com Portugal, Estônia, Eslováquia, Luxemburgo e Liechtenstein. Apesar de largas vitórias, como o 4 a 0 sob os liechtensteinianos, a campanha ficaria marcada pela derrota por 7 a 1 contra Portugal e um empate contra a frágil seleção da Estônia por 1 a 1. Na última rodada, os russos dependiam apenas de si para sonhar com a classificação, mas empataram, em Bratislava, por 0 a 0 com a  Eslováquia, não conseguindo a uma vaga na repescagem.

Lamentação em Bratislava: Rússia não iria à Copa de 2006 (Foto: Joe Klamar/AFP)
Lamentação em Bratislava: Rússia não foi à Copa de 2006 (Foto: Joe Klamar/AFP)

O renascimento: internacionalização do futebol

Empilhando vexames, a Federação Russa resolveu mudar totalmente a forma de dirigir a seleção. Como os treinadores locais não conseguiam lograr êxito frente à equipe, passou-se a apostar em nomes com rodagem e experiência fora do país. Era a vez do experiente Guus Hiddink, com passagens por Valencia e Real Madrid, assumir o cargo de treinador da Seleção Russa.

Com a presença de alguém com um nome com expressão no futebol mundial, passou-se a olhar para o futebol do país de um jeito diferente, com mais atenção. Com muitos talentos jovens, a internacionalização do futebol também ocorreu com os jogadores, que saíram para jogar em grandes centros da Europa durante o tempo que Hiddink esteve à frente da seleção, principalmente após a grande campanha na Eurocopa de 2008.

Hiddink teria a responsabilidade de reerguer o futebol russo (Foto: Clive Brunskull/Getty Images)
Hiddink teria a responsabilidade de reerguer o futebol russo (Foto: Clive Brunskull/Getty Images)

O sucesso nessa competição já começaria nas Eliminatórias, quando a Rússia terminaria em segundo, garantindo a classificação direta ao torneio final, em um grupo que possuía Inglaterra, Croácia e Israel. Apesar de ter perdido para Inglaterra e Croácia, os russos se classificaram graças à uma derrota dos ingleses frente aos croatas, na última rodada – o que resultou em uma vantagem de um ponto na tabela sob os Three Lions e os israelenses.

Como sempre, a vida dos russos não seria das melhores na fase de grupos. Ao lado de Espanha, Grécia e Suécia, a Rússia começou perdendo por 4 a 0 para os espanhóis na primeira rodada. Nesse contexto, a experiência de Hiddink foi importante, já que ele conseguiu manter a integridade psicológica do grupo, que venceu a Grécia por 1 a 0 e a Suécia por 2 a 0, garantindo sua passagem para as quartas de final.

Na fase seguinte, uma noite mágica, que ficou marcada, com certeza, para todos os torcedores russos. O adversário seria a forte e tradicional Seleção Holandesa, com nomes como Wesley Sneijder e Ruud Van Nistelrooy em seu elenco, que tinha sido a primeira colocada do Grupo C, fazendo uma campanha perfeita, deixando Itália e França para trás. Antes da bola rolar, era uma missão quase impossível.

Quase. A Rússia teve uma atuação memorável, atacando sem medo desde os primeiros momentos da partida e sendo superior durante a maior parte dela. Aos 13 minutos do segundo tempo, Semak recebia pelo lado esquerdo e faria um cruzamento perfeito para Pavlyuchenko abrir o placar. A partida ficaria dramática, quando a Holanda, em um dos seus poucos ataques de perigo, empatou, em um gol de cabeça de Van Nistelrooy, aos 41 minutos. Na prorrogação, o show seria de Andrey Arshavin: o camisa 10 foi o destaque dos russos, marcando um gol e assistindo Dmitri Torbinski, para selar a vitória por 3 a 1.

O show de Arshavin: Rússia eliminaria a Holanda (Foto: Valery Hache/AFP)
O show de Arshavin: Rússia eliminaria a Holanda (Foto: Valery Hache/AFP)

Apesar da derrota por 3 a 0 para a futura campeã Espanha na fase seguinte, os russos foram recebidos com festa em Moscou pela histórica campanha. Um pequeno exemplo do sucesso imediato que a internacionalização do futebol fizera nos gelados territórios – já que muitos jogadores se aventurariam em grandes ícones do futebol: Andrey Arshavin se transferiu para o Arsenal, Marat Izmailov para o Sporting, Pavel Pogrebnyak para o Stuttgart, Yuri Zhirkov para o Chelsea, Roman Pavlyuchenko para o Tottenham, Diniyar Bilyaletdinov para o Everton, entre outros. Era o começo de algo com uma expectativa muito grande pelos russos.

O que parecia ir muito bem, acabou sendo um fracasso. Apesar da boa campanha em 2008, muitos desses jogadores não deram certo nos grandes centros da Europa e atualmente estão jogando na Rússia novamente e a seleção não conseguiu uma vaga na Copa do Mundo de 2010, ficando atrás da Alemanha na fase de grupos das Eliminatórias e sendo eliminada pela Eslovênia na repescagem. Era o fim do comando de Guus Hiddink e de todo um projeto.

'Eras' Dick Advocaat e Fábio Capello: mais fracassos e polêmicas

Tentando juntar os cacos, a Federação anunciaria que o holandês Dick Advocaat seria o escolhido para continuar esse projeto. A história de outros anos, mais uma vez, se repetiria: classificação tranquila nas Eliminatórias da Eurocopa de 2012, deixando Eslováquia e Irlanda para trás. E, apesar de estarem em grande forma antes da competição começar, tiveram mais uma ridícula campanha no torneio final, sendo eliminados ainda na fase de grupos, vendo República Tcheca e Grécia avançarem – na Rússia, a campanha foi vista com muitos olhos ruins pela mídia, que classificou o treinador e Andrey Arshavin como os principais responsáveis pelo fracasso.

Capello reclamando com os juízes na partida contra Argélia (Foto: Julian Finney/Getty Images)
Capello reclamando com os juízes na partida contra Argélia (Foto: Julian Finney/Getty Images)

Fábio Capello teria a responsabilidade de classificar e ter uma campanha bem-sucedida na Copa de 2014, no Brasil. Se classificando em primeiro, deixando Portugal para trás, as esperanças na Seleção Russa eram grandes. Com um elenco de apenas jogadores atuando no futebol local, eles decepcionaram mais uma vez, mas, dessa vez, com muita polêmica. Na última rodada do Grupo H, eles venciam a Argélia por 1 a 0, garantindo, por ora, sua classificação, mas, em uma cobrança de falta aos 15 minutos do segundo tempo, Akinfeev teve sua visão atrapalhada por um laser vindo da arquibancada, o que resultou num gol de Islam Slimani e na eliminação russa na fase de grupos.

De uns tempos para cá: qual o panorama russo?

A Eurocopa de 2016 também não é uma história de amor para ser contada pelos russos. Com Leonid Slutsky encarregado de ser o treinador, a Seleção Russa não venceu nenhuma partida, ficando em último em um grupo com Inglaterra, Eslováquia e País de Gales. Com uma situação muito vivida com os treinadores no Brasil, a Federação Russa demitiria, mais uma vez, o seu treinador após uma campanha ruim.

Assim, assumiu Stanislav Cherchesov, ex-goleiro com uma passagem marcante pelo Spartak Moscou no início dos anos 90. Como treinador, ganhou o Campeonato, ficando em primeiro na temporada regular e na fase decisiva do torneio, e a Copa da Polônia pelo Legia Varsóvia na temporada retrasada, o que lhe deu créditos para assumir a seleção.

Cherchesov, porém, assumiu sem ter muito tempo para montar algo sólido, que ele considerasse como correto para a seleção. A Copa das Confederações desse ano – em que a Rússia saiu, novamente, na fase de grupos – deixou claro que, apesar de ainda existir uma luz no fim do túnel, ainda há muito para se fazer nessa equipe, que ainda não se encontrou totalmente.

Da última convocação da Seleção Russa, que jogará amistosos contra Argentina e Espanha, apenas dois jogadores jogam fora do país, mas não são exemplos de visibilidade dentro do continente europeu: são eles Roman Neustädter, do Fenerbahçe, e Konstantin Rausch, do Colônia – O que representa uma situação não muito animadora, já que exemplifica que o futebol russo não está em grande visibilidade e, consequentemente, passa por uma decadência.

Glushakov e Kokorin: principais jogadores (Foto: Pedro Ugarte/AFP)
Glushakov e Kokorin: principais jogadores (Foto: Pedro Ugarte/AFP)

Apesar disso, existem alguns talentos e nomes conhecidos nessa seleção, um deles é o de Mário Fernandes, lateral ex-Grêmio, que se naturalizou. Igor Akinfeev, capitão da equipe, e Yuri Zhirkov são os mais experientes e exemplos de longevidade na seleção, já que vem sendo convocados com regularidade há, pelo menos, doze anos. A grande esperança técnica fica por conta de Denis Glushakov, volante do Spartak Moscou, e os atacantes Aleksandr Kokorin, do Zenit, e Artem Dzyuba, do Krasnodar, atuais artilheiros do Campeonato Russo, com oito gols.

A conta

O cenário não pode ser pior para a Rússia. Apesar de toda a animação por conta de ser um país-sede, a seleção do país não é animadora – muito pelo contrário, já que tem mais problemas do que fatores elogiáveis. Sem sequência e com pouco tempo de preparação e montagem de uma base, os treinadores não têm aparo nenhum vindo da Federação, que é imediatista e não ajuda no desenvolvimento da seleção.

Desde 1992, a Rússia empilha fracassos e falsas esperanças de boas campanhas por conta de campanhas em Eliminatórias contra equipes, em sua maior parte, sem poder de competitividade. Uma antítese, de fato, é que a sorte em sorteios de torneios finais nunca foi das maiores, já que sempre enfrentou seleções de alto renome e de grande poder técnico em fases preliminares.

A grande campanha de destaque foi, sem dúvida, em 2008, com a vinda de alguém de experiente para comandar a seleção e a saída de alguns jogadores para grandes centros do futebol. O projeto, porém, foi abandonado muito precocemente por conta de um resultado negativo, mas poderia ter dado frutos se houvesse uma continuidade. O imediatismo é o grande caos dessa seleção – desde 1992, 13 treinadores assumiram o cargo, dando, em média, uma mudança a cada dois anos. 

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