Sim, o problema do Flamengo está dentro do Flamengo
Uma grandeza que parece estar no chão (Foto: Marcelo Cortes / Flamengo)

O clima ficou pesado no Flamengo após a derrota para o Fluminense na final do Campeonato Carioca. Perder o título e não conquistar o tetra estadual talvez nem seja a principal causa da tensão presente na Gávea. A coisa vai além do resultado esportivo dentro de campo, aliás vai muito além das quatro linhas.

Não é novidade para ninguém que o elenco flamenguista tem jogadores excelentes e qualificados, com capacidade de vencerem títulos e demonstrarem um bom futebol, mas isso não vem acontecendo. Será que a culpa é exclusiva do técnico português Paulo Sousa que chegou em janeiro deste ano? Não, não é exclusiva do Mister.

Depois da segunda final de sábado, Paulo Sousa deu coletiva, o vice-presidente do clube, Marcos Braz, falou com jornalistas e até o presidente Rodolfo Landim também trocou palavras com a imprensa. Enquanto isso, os jogadores foram blindados e não apareceram.

Paulo Sousa não está indo bem, pois ainda não conseguiu criar um time base em pouco mais de dois meses de trabalho, mas ele não é o principal motivo dessa queda do Flamengo. A causa é maior.

Por exemplo, vice e presidente do clube focam em seus projetos pessoais, que não são pequenos: Marcos Braz é vereador no Rio de Janeiro e visa cargo de Deputado Federal, já Rodolfo Landim tem sua participação na Petrobras e só no domingo depois do empate com o Fluminense decidiu abdicar do cargo na estatal. Isso, com certeza, tira o foco do trabalho no clube. Mas também não é só isso.

Foto: Alexandre Vidal / Flamengo
É inevitável que grandes projetos pessoais tirem a atenção de um foco que deveria ser maior: o Clube de Regatas do Flamengo (Foto: Alexandre Vidal / Flamengo)

Desde que Rogério Ceni foi demitido, o Flamengo não venceu mais nada, e ainda foi vice em quatro das cinco competições que disputou em seguida: caiu na semifinal da Copa do Brasil, vice no Brasileirão, vice na Libertadores, vice na Supercopa e agora vice no Cariocão.

A filosofia de Paulo Sousa não é "bagunçada" como alguns resultadistas dizem. Os trabalhos dele na Fiorentina, brigando por vaga na Europa League, e no Bordeaux, ode conseguiu a melhor colocação recente do time na Ligue 1, mostram sua linha de raciocínio, porém ela não é alcançada no Flamengo. Alguns jogadores acomodados no ápice de 2019 e 2020 sabotam e impedem uma renovação. O português chegou com respaldo para renovar o ânimo do elenco, e isso está acontecendo.

Paulo Sousa mexendo os pauzinhos para reformulação no elenco

Foto: Marcelo Cortes / Flamengo
Depois de conhecer o elenco, as peças, o treinador começa a se mover (Foto: Marcelo Cortes / Flamengo)

A famigerada "Panela de 85" perdeu espaço no grupo. Diego Alves é sucumbindo a Hugo Souza e agora é terceira opção com chegada de Santos; Diego Ribas virou quinta opção no meio de campo; Éverton Ribeiro foi deslocado à direita e frequentemente é sacado; Renê é apenas opção no banco; Willian Arão e Filipe Luís são os integrantes dessa "panela" que mais minutagem têm.

Além de Diego Alves, Diego Ribas e Renê estarem fora dos planos da comissão técnica, Filipe Luís também perderá espaço no time assim que o zagueiro Pablo se recuperar de lesão.

É nítido que a relação entre Paulo Sousa e jogadores não é amistosa, não é sadia. Grande parte do elenco rubro-negro está insatisfeita com a filosofia de trabalho do português. Sim, essa mesma insatisfação que foi vazada sobre os trabalhos de Domènec Torrent, Rogério Ceni e Renato Gaúcho. Até onde se sabe no mundo empresarial, é o chefe quem dita o trabalho a ser feito, e se o subordinado não a cumpre, cabe um desligamento. Então, surge a pergunta: será que esses quatro técnicos não prestam ou são os jogadores muito mimados, que ainda não superaram o fim de relacionamento com Jorge Jesus?

Grupinhos internos que impedem integração

Foto: Marcelo Cortes / Flamengo
Paulo Sousa assumiu um ninho de cobras criadas e agora tem dificuldades para domá-las e expulsar algumas (Foto: Marcelo Cortes / Flamengo)

De acordo com Léo Burla, do UOL, existem uma ala grande no elenco onde David Luiz é o líder. Esse grupinho com Pedro, Andreas Pereira e Rodinei. Já a "Panela de 85" tem Diego Ribas, Diego Alves e Filipe Luís, por exemplo. Até o próprio Gabriel Barbosa deixou de ser abraçado pelos mais velhos do elenco por transitar mais e ser mais engajado com jogadores mais jovens — algo diferente das temporadas passadas.

É justamente por essa capacidade de diálogo que Paulo Sousa quer que Gabigol seja o capitão do Flamengo. Obviamente, isso incomodou alguns atletas, segundo informação ge.globo. Esses insatisfeitos puseram em xeque a conduta de Gabriel fora de campo, o episódio do segundo pênalti que ele não chegou a bater na Supercopa também foi colocado em pauta no diálogo.

Muitos torcedores inclusive já falam em demissão. Paulo Sousa largou a Polônia em caminho de Copa do Mundo para treinar o Flamengo. Assumiu um grupo vaidoso e começou a fazer a limpa. Alguns acomodados tentam fritá-lo, e parece que estão conseguindo. Mas, mesmo depois do vice no estadual, o treinador português avisou ao elenco que a linha de trabalho não sofrerá mudanças devido às más atuações e segue irredutível, sendo pulso firme.

Tudo isso só comprova o que Domènec Torrent disse em 2020 na entrevista concedida ao ge.globo: "O problema do Flamengo está dentro do Flamengo. Enquanto eles não esclarecerem as coisas entre si, isso vai continuar com Dome, com Ancelotti, com Klopp, com Pep Guardiola, com quem for."

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